O cineasta paulista Roberto Moreira levanta, em seu segundo longa-metragem (após o elogiado “Contra Todos”), uma das questões mais comuns dos relacionamentos modernos: afinal, por quanto tempo e por quantas provações uma história de amor pode sobreviver? E pela ciranda de experiências, desilusões e desencontros que o filme “Quanto Dura o Amor?” apresenta, a resposta não parece ser a mais satisfatória.
Aos moldes dos filmes do saudoso Robert Altman, Moreira coloca várias tramas em cena, cruzando-as em menor ou maior grau, dependendo do próprio interesse. Três delas despertam mais atenção. Maria Clara Spinelli é uma advogada que se apaixona por um colega de trabalho – e o desejo é recíproco. Só que ela guarda um segredo: é transexual. Como ele irá reagir ao descobrir esta verdade? A cantora Danni Carlos aparece como… uma cantora! Ela está no meio de um triângulo amoroso entre um belo rapaz (Paulo Vilhena) e uma garota recém chegada do interior (Silvia Lourenço). Qual dos dois ela irá escolher? E por fim há um escritor (Fábio Herford) viciado numa garota de programa (Leilah Moreno). Ele quer amor, ela só pode oferecer sexo. E agora?
Todos estes dilemas são levantados com bastante seriedade, apesar do tom geral do filme não ser dos mais dramáticos. A discurso assumido é de que essas são situações da vida moderna. Ninguém é de ninguém. E não há limites ou ordens sobre quem devemos gostar, como ou quanto. Homens, mulheres, prostitutas, gays, lésbicas, brancos, negros. O que importa é amar. Muito ou pouco, isso sim é que varia. E é o que nos torna únicos.
A direção de Roberto Moreira é correta, sem grandes arrojos, porém de acordo com o objetivo geral de servir como um retrato da realidade, sem muita interferência. E ele também é responsável por dar a liberdade necessária ao elenco criar e se soltar. As novatas Spinelli e Carlos assumem papéis muito próximos de suas realidades, e isso certamente deve ter lhes oferecido a segurança necessária para encararem o desafio. E o resultado é primoroso. Vilhena não parece almejar nada além do que ser o galã da ocasião, e é isso que ele faz aqui (diferente da composição um pouco mais elaborada por ele apresentada em “Chega de Saudade”). Já a surpresa mesmo é Silvia Lourenço, que a cada novo trabalho se confirma como um dos maiores talentos da atual geração de intérpretes nacionais.
“Quanto Dura o Amor?” não surpreende, mas emociona. Não choca, mas envolve. Não perturba, mas provoca a reflexão. E estes caminhos são muito mais apropriados. Um trabalho maduro e elegante, dentro de um viés cosmopolita e universal. Se passa em São Paulo, mas poderia ser em qualquer lugar do mundo. Fala-se de pessoas, e no interior somos todos iguais. Mas cada um do seu jeito.
Quanto Dura o Amor?, Brasil, 2009
De Roberto Moreira
Com Silvia Lourenço, Maria Clara Spinelli, Paulo Vilhena, Danni Carlos, Leilah Moreno, Gustavo Machado, Fábio Herford, Paula Pretta, Ailton Graça, Sérgio Guizé
http://quantoduraoamor.com.br/v1/
(nota 7,5)