Comportamento

Oh, Julia! We beg you for more butter!

Por Luciano Lunkes

A sinopse de “Julie & Julia” (imagem acima) já sugere quem seria essa personagem ímpar que, segundo o The New York Post, deixou a sua indiscutível marca na cultura do século 20: “with the right combination of passion, fearless and butter, anything is possible”. Bingo! Julia Child era a exata combinação de todos esses ingredientes estranhamente harmonizados com o seu corpo de proporções engrandecidas: uma mulher apaixonada, destemida e saborosamente amanteigada. Muito amanteigada. Como a sua cozinha.

Seus admiradores afirmam que são três as razões pelas quais essa inusitada chef é imensamente amada pelo seu fiel público: porque era uma pessoa íntegra, dócil e super easy going; porque encontrou uma maneira (e que ninguém sabe muito bem como!) de ficar por tantos anos em uma cozinha sem atear fogo no seu cabelão quimicamente armado; e, por último, porque dizia aos americanos nos seus imperdíveis programas de TV que não haveria nenhum problema se algum alimento caísse acidentalmente ao chão, pois seriam eles, os telespectadores, provavelmente os únicos que estariam em suas cozinhas testemunhando aquela queda. Ou seja, “simplesmente junte o naco e faça de conta que nada aconteceu”. Cute, isn’it? Também acho. Mas imagino que Julia era admirada, acima de tudo, por ser uma criatura persistente. Muito persistente.

Isso me faz lembrar uma historinha divertida que uma amiga pessoal de Julia me contou certa vez. Estavam as duas preparando um aioli, uma espécie de maionese francesa. O angu não estava dando muito certo. Dorothy, a amiga, estava bastante frustrada com o não-resultado. Após várias tentativas e proporcionais erros, jogaram tudo para o alto e desistiram da empreitada. Comeram o aioli assim mesmo, todo errado. Logo após o almoço, Julia, estranhamente animada, levanta-se de sobressalto e esbraveja com sua inconfundível voz de desenho animado (assustadoramente bem reproduzida por Meryl Streep no filme, por sinal): “Dorothy, voltemos agora à cozinha. Let’s get it right!” Ela tinha, então, 85 anos e já havia preparado inúmeros aiolis em sua longa vida quixotesca. Mas estava determinada a acertar aquele! E nada a faria mudar de idéia.

Tive a feliz oportunidade de conhecer Misses Child em uma ocasião durante os meus anos na Big Apple. Julia esteve em uma tarde no The French Culinary Institute para dar uma aula-demonstração no anfiteatro dessa renomada escola de gastronomia plantada à esquina da Grand Street com a Broadway, no Soho. Naquela época eu trabalhava no Setor de Eventos do Anfiteatro e fora destacado, juntamente com outras pessoas, para auxiliar a vovó Child na preparação e execução de sua breve aula. Iria, finalmente, conhecer essa grande-figura-grande de quem eu já me sentia íntimo, de uma certa forma, de tanto ouvir falar nela e de assistir a seus engraçados programas de gastronomia.

É praticamente desnecessário dizer que aquela foi uma tarde muito bacana. Julia Child, apesar da sua idade super avançada e de seu visível cansaço, foi formidável. Interessou-se por todos à sua volta. Quis saber um pouco sobre a trajetória de cada um. Envolveu todos de uma forma amável, delicada e com o seu característico bom humor. Solicitava auxílio de uma forma muito respeitosa e franca. Dez para a Juju! Mais uma vez foi comprovado, através dessa incrível senhora, que a marca dos grandes é definitivamente a humildade, a simplicidade, a paixão, o esforço e, no caso de Julia Child, a manteiga. A lot of it !

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Parar ajudá-los a entender um pouco mais sobre a importância dessa senhora: os EUA dos anos 50 e 60 estavam no auge de seu dourado “american way” – mas, por outro lado, encontrava-se no ponto mais baixo e desolador de seu “american cooking way”. Era praticamente impossível, naquela época, encontrar produtos hortifrutigranjeiros frescos nas prateleiras dos supermercados. Ingredientes simples como alho, cebola, ervas, aipo, folhas verdes etc, eram artigos quase inimagináveis. No lugar destes, e por toda a parte, proliferavam os milagrosos enlatados, os mágicos bolos e pudins de caixinha, as saudáveis margarinas, os prá-lá-de-práticos junk food e fast food e os cômodos diners. Havia uma obsessão pelos alimentos instantâneos que, por sorte, ajudavam as donas de casa a preservar suas vistosas cozinhas-vitrines em instantânea ordem. Smile, you are being watched!

E é nesse cenário que Julia Child entra para dar um rumo totalmente diferente aos hábitos alimentares dos entusiasmados yankees. Seu programa de TV, “The French Chef”, convidava as entediadas e sem-ter-muito-o-que-fazer donas-de-seus-castelos a se aventurarem por um território bastante obscuro que, não obstante, certamente lhes daria uma espécie de novo rumo, de projeto, de life purpose capaz de auxiliariar as rainhas-reféns-de-seus-próprios-paraísos-domésticos a preencher um provável vazio existencial! Jogaram-se, então, como abelhas, ávidas ao pote de mel. Good bye depressão. O resto é história.

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Vinagrete Básico (traduzido do livro “Julia’s Kitchen Wisdom”)

Que tal dar um upzinho na sua saladinha de verão? Julia pode ensinar como!

½ colher de sopa de cebola roxa, finamente picada
½ colher de sopa de mostarda dijon
¼ de colher de chá de sal
½ colher de sopa de suco de limao
½ colher de sopa de vinagre de vinho
½ xícara de óleo de oliva extra virgem
Pimenta do reino moída na hora

Preparo
Misture a cebola picada e a mostarda em uma vasilha de fundo redondo. Adicione e suco de limão e o vinagre e mexa com o auxilio de um fuê.
Adicione em um fio o óleo de oliva e bata em movimentos circulares até virar uma emulsão.
Acrescente a pimenta preta. Teste o vinagrete mergulhando uma pequena folha de alface. Experimente e faça as correções necessárias.

*Super versátil, esse vinagrete básico pode ser feito em grandes quantidades e armazenado na geladeira por até uma semana.


Quimeras da Criatura: Revelando-se contra o Criador!

Por Luciano Lunkes

 

peixe

“Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus (!!!!)
Pelo amor de Deus…”

Ora, ora ! Por favor, perdoe a minha interrupção abrupta deste fluxo de puro lirismo metafísico, mas você não acha tudo isso uma puta de uma sacanagem? Esta malandragem do Divino que tudo o que mais apreciamos nessa vida ou mata, ou é proibido ou é destinado unicamente para o Seu próprio deleite e usufruto? Para mim, isso não passa de uma grande safadeza do Marmanjão. Coisa do capeta.

A começar pela mal-bem-dita carne e seus insuperáveis prazeres à mesa. E adjacências. Veja bem. Você acha realmente justo que aquilo que nos faz salivar em encadeamentos de gozos múltiplos e gloriosos ao devorarmos um suculento churrasco de vazio é exatamente aquilo que poderá mais tarde nos confinar prematuramente em um minúsculo imóvel na nada-gloriosa-cidade-dos-pés-juntos? Acha também incontestavelmente normal que a razão pela qual os nossos corações disparam de alegria incontida ao mordermos um maravilhoso magret de pato é exatamente a mesma razão pela qual essas irriquietas bombinhas escarlates poderão emperrar de repentina tristeza em uma manhã qualquer de domingo? Do you have any clue what I am talking about?

Pois é. A controvertidamente sedutora figurinha desse papinho todo aqui chama-se Mrs. G.o.r.d.u.r.a. Afinal, é pela gordura que um carneiro tem o seu estimado sabor de carneiro. É através da irresistível presença dela que um pato tem o seu delicioso gosto de pato, que um salmão é desejado como um salmão, que a chapada da Mimosa é identificada como um insubstituível assado de múúú e que (pasme!) o seu rechonchudo pneumaticozinho é tão sinceramente adorado pela sua com-probleminhas-visuais-mas-ultrapaixonada-parceirinha (melhor ser otimista, certo?). A tal ponto que se você, num ímpeto de doce rebeldia contra o Criador, fritasse um pedaço magro de filé de porco numa gordura de carneiro, nem o Cruz-Sacrificado-Cristo nem a Sua Azulíssima Mãe-à-Moda-Perla adivinhariam que aquilo, na verdade, não passa de um disfarçado naco de óinc-óinc. Os dois, provavelmente, se gabariam para as zelosas patrulhas de anjos e arcanjos que sobrevoam aqueles confins dos céus contando animadíssimos sobre as maravilhas do medalhão de mé-hé-hé-ééééé-mal-passado que acabaram de jantar e que fôra diligentemente preparado pela graças-aos-bons-deuses-humildemente-submissa-cozinheira-Criatura.

Uma grande “marotagem”, essa! A Deles, obviamente. Quer dizer que, para permitir-nos o prazer inigualável e inocente de desfrutar uma suculenta costelinha de porco assada, somos obrigados a injetar uma seringa de gordura mortífera nas nossas cândidas aortinhas? Ah é, é? Parece que não há outro jeito, não é mesmo? Ou isso ou a perversa abstinência-católico-apostólica-romana-cruzes-credo-jesus -por-misericórdia-me -chicoteie-eu-só-como-hóstia-e-alface-americanamém! Não seria essa última opção, de qualquer forma, a outra morte? E por sinal, a pior delas?

Pior!

Well, já que não há o que negociar sobre todas as coisas, voltemos ao estratégico da capo então …

“Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador.
Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
e esses vales são de Deus”

PELO AMOOOOOOOOOOR DE DEUS !!! Não vê que ISSO é pecado?
Putz! Que Paidrasto. Taaáááxi!! Aos infernos via Via Crúcis, por favor. Entra aí, Zizi. Vem comigo! Estou me coçando para conhecer o diabo!

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PS: Quimera (do grego khimaira e do latim chimaera): monstro fabuloso formado de diferentes partes de animais.

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Fashion Rocks chega ao Brasil

Por Alexandre Macedo

Moda e música é uma fórmula que dá e dará certo, funciona e não é modismo. Estilistas precisam da música para dar movimento a sua coleção, quando as modelos dão o passo certo a cada look exibido pela passarela. Assim como é necessário ter o ritmo correto para a criação casar com a idéia do designer. Por outro lado temos os músicos, que sem a moda, sem o vestuário que os diferencia, precisam criar um estilo próprio quando estão no palco e acabam formando uma identidade visual como artista. Esse fator, muitas vezes, é essencial para o sucesso do mesmo com o seu público, comunicando, além da música, todo um life style. Inclusive hoje existem muitas bandas e artistas com stylists que coordenam a imagem e o figurino. História que se repete desde os anos 80, quando a rainha do punk, Vivianne Westwood, começou a vestir os Sex Pistols – na época ela era casada com o vocalista do grupo. Moda e música é um casamento, até que a morte os separe.

Indo ao encontro do que falo, aconteceu no último dia 24 de novembro, no Jockey Club do Rio de Janeiro, a primeira edição brasileira do Fashion Rocks, por aqui batizada de “Oi Fashion Rocks Brasil’’. O evento nasceu em Londres, com apoio do Príncipe Charles, e une música e moda. No Brasil, teve cunho beneficente revertido para a ONG Rio Solidário. Atrações internacionais com shows e desfiles de renomados estilistas da moda mundial deram o toque principal e especial.

Com mais de cinco edições realizadas pelo mundo, o Fashion Rocks é um sucesso nos Estados Unidos e na Europa. A lista de artistas que já se apresentaram em algumas de suas edições é extensa – Alicia Keys, Lily Allen, Whitney Houston e Chanel (Londres, em 2007); Bon Jovi, Blondie, Vivienne Westwood e Burberry (Mônaco, em 2005) – e impressiona. Após participar de uma concorrência envolvendo as cidades de Dubai, Xangai e Mumbai, o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar esta primeira edição fora do eixo Europa-EUA.

O patrocínio master foi da Oi, maior empresa brasileira de telecomunicações e que, entre outras iniciativas, foi pioneira no desenvolvimento de uma estratégia de divulgação que associa sua imagem a um estilo de vida. Com esta diretriz, a companhia investe em ações de marketing de entretenimento. A moda ao lado do esporte, da música e da cultura é um dos pilares da estratégia da companhia.

O styling do espetáculo apresentado no Brasil foi da inglesa Katie Grand, que coleciona roupas desde os 14 anos e usa muitas peças suas nas produções que faz. Ela também já trabalhou como diretora de estilo nas revistas “Dazed & Confused“, “The Face” e “Pop“, e agora é quem manda na “Love“, publicação que está em sua segunda edição (sai apenas duas vezes por ano). Além disso, a garota produz desfiles de grifes como Prada, Louis Vuitton, Miu Miu e Giles Deacon.

Dentre as atrações, estiveram nomes de destaque internacional. Puffy Daddy, que é vestido pela grife que cantou – Versace – teve seu show aberto pela top model brasileira Isabeli Fontana. Na sequência, a banda novata Stop Play Moon fez a trilha de Alexandre Hercovicth – a vocalista é musa do estilista. Wanessa e Ja Rule, atrações muito aguardadas, se apresentaram para André Lima. Ciara cantou para Givenchy, enquanto que Estelle, que estourou com seu hit “American Boy”, se apresentou com a moda praia de Lenny. Grace Jones, bastante performática, trocou três vezes de chapéu e vestia um colant preto com uma capa que se mexia parecendo que estava ao vento, cantou e dançou para o desfile do queridinho das fashionistas, Marc Jacobs. Lino Vilaventura, último estilista nacional da noite, apresentou um mix de suas coleções na voz de Daniela Mercury. A dupla foi perfeita na brasilidade da voz de Daniela e no trabalho manual de Lino, uma de suas admiradas características.

Por fim, Mariah Carey encerrou os desfiles, vestindo um longo preto modelo séria, e os looks de Calvin Klein, pela direção criativa do brasileiro Francisco Costa. A noite fechou com chave de ouro ao som da bateria da Grande Rio, deixando um gostinho de quero mais. A próxima edição, em 2010, do Fashion Rocks, já foi confirmada pela atriz e modelo Fernanda Lima, que foi elogiada pela apresentação que fez de todo o evento.


A moda é bagaceira

Por Dimas Tadeu

Glamour, beleza, sensualidade. Provavelmente é o que passa na cabeça de qualquer um quando pensa em fotografia de moda. Mas não na de Terry Richardson. Fotógrafo por trás de campanhas para marcas como a Gucci e Miu Miu, o novaiorquino criado em Hollywood também já fez capas para a Vogue e GQ. Até aí, tudo bem. Exceto pelo fato de que as fotos de Richardson tem tudo, menos glamour. Tem Gisele Bündchen cabeçuda e com cigarrinho na mão. Tem James Franco depilando o sovaco. Tem a mãe do fotógrafo com sorriso indecente e banguela. Tem até Luiza e Yasmin Brunet com todas as imperfeições de fora, sem espaço pra retoques. O universo de Richardson é assim: decadente e ousado. Sem censura, sem pudor e indo muito além do que se poderia chamar de mau gosto.

Só que ninguém parece estar preocupado. Boa parte das celebridades mundiais posaria para as lentes bagaceiras de Richardson sem pensar duas vezes. Na verdade, eles andam pagando pra isso. A capa do último CD de Justin Timberlake, por exemplo, é assinada pelo fotógrafo.

O motivo do frisson? Terry sabe o que o povo quer. E dá em doses cavalares. Como bom artista, o cara descobriu queterryworld fotos bonitas e bem trabalhadas fazem uma boa capa de revista ou editorial de moda, mas não fazem pensar. Ninguém pára pra refletir sobre a vida de Gisele Bündchen quando ela está toda poderosa anunciando qualquer coisa: de perfume a TV por assinatura. No máximo, dá pra sentir um pouco de inveja. Mas não sob a ótica devastadora de Richardson. Em suas fotos, a Gisele “real” anuncia simplesmente o vazio de quem vive da imagem, o apocalipse do belo. É a tal “foto sem photoshop” que todo mundo quer ver. Mas de perto, ninguém quer olhar. É “muito pra cabeça”.

Pra quem curtiu o trabalho do cara, vale a pena dar uma olhada no livro “Terryworld”, lançado ano passado pela editora Taschen. Além da impecável editoração gráfica, a edição traz uma compilação de praticamente todo o trabalho do artista. O que significa que você vai ter vergonha de folheá-lo perto dos outros. Outro livro que vale a pena conferir é “Rio, cidade maravilhosa”. Sim, ele esteve por aqui. E não poupou nem Dercy Gonçalves. Sério. O site oficial (em inglês) também é uma boa pedida pra dar uma olhada, por cima, no portfólio de Richardson.

Bebendo em fontes como a pop art, o trabalho de Richardson tem traços de Andy Warhol, John Waters e até de Larry Clark. É a pílula vermelha de Matrix. Toma quem tiver coragem. E estômago. A idéia é justamente desmascarar a moda e o mundo e gritar que o “rei está nu”. Ou o presidente: nem Obama escapou das lentes de Terry. E graças a ele, está lá, pra todo mundo ver, que o homem mais poderoso do mundo tem pele oleosa, marcada e não vê adstringente faz tempo. E que esse negócio de glamour é pura conversa fiada.

(todas as imagens são do próprio Terry Richardson)