Cultura

Por que a promessa de Mika não vingou

Por Rafael Maia

Quando Mika surgiu, deu uma sacudida na parada das músicas mais tocadas e dos singles mais vendidos do Reino Unido. Ele era diferente e refrescante. Em janeiro de 2007, emplacou ‘Grace Kelly’ no topo das mais pedidas e, de lambuja, colocou o ótimo álbum de estreia “Life in Cartoon Motion” no primeiro lugar da Inglaterra.

Daí a ele se tornar a grande promessa para aquele ano não foram dois passos. Choveram comparações que iam de Freddy Mercury a Prince, passando por Elton John e pelo muito icônico David Bowie. Até prêmio de revelação da principal premiação da música pop do Reino Unido, o Brit Awards, ele levou. Só que a expectativa, por assim dizer, não vingou. Pelo menos não como se esperava.

A verdade é que de novo o líbano-americano criado em Londres não tinha nada. Há pelo menos quatro anos ele tentava algum sucesso de público. Do álbum de estreia, a excelente ‘Relax, Take it Easy’ foi a primeira tentativa de um hit. A música, porém, fez um desempenho muito tímido nas paradas britânicas, figurando apenas na posição de número 18. Logo depois, numa história semelhante a que trouxe o recente sucesso do também britânico La Roux, a Universal Records encontrou nosso garoto e relançou o álbum. Dessa vez, com ‘Grace Kelly’ como carro-chefe. Aí começaram o sucesso e aquelas comparações oitentistas cheias de glam e glitter.

Só que elas, no entanto, fazem bem mais sentido com “The Boy Who Knew Too Much”, segundo trabalho de estúdio do moço, do que com o anterior. O sucesso do primeiro CD se dá justamente porque, embora o remontemos à atmosfera ‘Freddy Mercury meets David Bowie’, a comparação acaba por aí. Ela morre na praia, graças a deus. O “Life…” é, antes de qualquer outra coisa, um trabalho autoral, com uma marca de um artista que estava se divertindo ao recriar uma sonoridade que há muito não se ouvia. Ele é um trabalho sem medo, quase que pretensiosamente despretensioso. Cheio de referências, como não podia deixar de ser, mas essencialmente refrescante. E com letras brilhantes e inteligentes, como as de ‘Billy Brown’ e ‘Stuck in the middle’, só para citar duas.

Em “The Boy…”, a coisa fica um pouco diferente. A sonoridade não é nova. O momento já não é mais tão favorável, levando-se em conta uma cena britânica que está, a cada semana, mais dinâmica e mutável do que costumava ser. Aí aquela comparação se torna inevitável e, de certo modo, não benéfica. Das letras menos trabalhadas verbalmente e arranjos mais pomposos às cores exuberantes dos videoclipes, tudo ali remonta mais a esse espectro dos anos 80. O álbum, então, se esvai de personalidade no uso de uma superprodução que aparenta uma tentativa de contornar alguma possível crise de criatividade.

“Life in Cartoon Motion”, apesar das comparações, possui uma marca original do artista mais evidente do que o segundo CD. Nele, Mika parece muito mais preocupado em mostrar quem é para o público, com todas as influências e perspectivas pessoais, do que em tentar impor um estilo. E quando se faz isso baseando-se fortemente em algo que já foi feito, a coisa fica estranha.

O que acontece com “The Boy Who Knew Too Much” parece justamente o contrário. Aqui, o artista deixa de lado a criatividade motora do primeiro trabalho e abre espaço para a necessidade de impor uma maneira de fazer música. A qualidade da produção do segundo álbum é impecável. A construção de cada música como parte de uma obra maior é muito mais pensada aqui do que o que se pode ouvir em “Life in Cartoon Motion”, por exemplo. Mas a questão extrapola este ponto.

Em “The Boy Who Knew Too Much”, o artista soube demais como fazer um álbum muito bem construído, sem furos e redondo. O espaço para sonoridades novas e experimentações não usuais, entretanto, foi sufocado pelo excesso da técnica. Que o segundo álbum é um trabalho formidável, disso não há dúvida. Que o segundo álbum é um produto que combina bom gosto e ponderação musical, isso se pode perceber ao escutá-lo com atenção. Mas talvez o esforço do menino Mika em se tornar um artista sólido tenha minado sua criatividade. O que ouvimos no novo trabalho é excelente, mas que, nem de longe, se compara ao ‘amadorismo’ gostoso, refrescante e necessário à criatividade que “Life in Cartoon Motion” apresentou ao mundo. Se antes Mika lançou a promessa para o mundo da música, Agora ele a matou pela ironia do desejo de se tornar um bom artista.


Ponderações e Inflamações do Mundo Pop

Por Rafael Maia

Não existe outro espaço dentro da música que sofra tantas reviravoltas em tão pouco tempo com o do Pop. Acusado de reproduzir mesmices, ele parece carecer, na verdade, de uma análise capaz de encarar este tipo de arte como sendo séria. Dizer que a ousadia e o novo não encontram lugar dentro de um mundo preocupado em reproduzir ‘o mesmo’ guiado pela lógica mercantilista não é melhor caminho.
Nos Estados Unidos, por exemplo, nem Shakira, nem Madonna, nem Mariah Carey fazem atualmente as músicas mais ouvidas, aquela que é pop de popular mesmo. Apesar disso, embora Shakira tenha trabalhado com o Timbaland, produtor batido que acaba de lançar seu segundo álbum de estúdio e single novo com participação da cantora francesa que ninguém conhece ‘So shy’ (essa, sim, com sonoridade nova, devo dizer), o ‘She Wolf’ é bem diferente de ‘Oral Fixation’ e ‘Laundry Service’, só para citar os trabalhos lançados em inglês. Existe evolução evidente no novo álbum, tanto no que tange às letras quanto ao que se refere às próprias produções, que têm um ar dance bem forte.
Em relação à Mariah, tenho uma ponderação. Discordo de quem afirma que ‘Memoirs of an Imperct Angel’ remete, por causa das baladas, ao início da carreira. ‘Obsessed’ está aí para dizer o contrário. ‘Memoirs’, na verdade, parece uma tentativa de resgatar o sucesso de público e de crítica do aclamado ‘The Emancipation of Mimi’ (2005), um CD que carregou baladas de enorme sucesso mundial, como ‘We Belong Together’ e ‘Don’t Forget About Us’. Vale lembrar que, às vésperas do lançamento de seu filme “Glitter”, em 2001, e do final do casamento com o Motolla, que aconteceu um pouco antes, a carreira de Mariah estava destruída. O lançamento de 2005 não só a ressuscitou como deu um boost absurdo na imagem dela. Quando ‘E=MC²’ chegou às lojas, Mariah veio com a ‘desculpa’ de que o CD tinha mais hip-hop porque era ‘a sobremesa do Emancipation of mimi’. O álbum, que de doce não tinha nada, nem sequer se equiparou ao sucesso do anterior. Este contexto, para mim, explica bem melhor as baladas de ‘Memoirs of an Imperfect Angel’.
Falar de Rihanna, hoje, é complicado. A comparação do controverso ‘Rated R’ com ‘Good Girl Gone Bad’ é muito forçada. GGGB possui hits mundiais estrondosos. ‘Rated R’ é um álbum sombrio, fruto de um trabalho da artista sobre o caso de agressão de Chris Brown. ‘Rated R’, talvez, seja o trabalho pop ‘mais difícil’ de ser interpretado e absorvido por amantes de ‘Umbrella’, ‘Don’t Stop the Music’, ‘Rehab’ e ‘Shut up and Drive’. A produção do novo CD é obscura e as letras, não raras vezes, são amargas. A primeira música de trabalho, por exemplo, ‘Russian Roulette’, é sobre uma menina que se mata! A música chegou a até ser acusada de poder influenciar garotas indefesas a quererem se suicidar. De ‘you can stand under my umbrella’ para ‘so pull the trigger’, há um longo e tortuoso caminho. Sem contar passagens como ‘It’s too late to think of the value of my life’.
O que falar de Lady GaGa? Dizer que a moça busca influências dos anos 80 e anos 90 é redundante. Redundante porque é muito abrangente e não quer dizer absolutamente nada. Qualquer músico que existe hoje com certeza tem alguma influência de alguma coisa que aconteceu nos últimos 30 anos na música. É aqui que acho que o ‘a regra do pop é não ousar’ cai por terra. Das 4 cantoras citadas, ela é a que mais faz sucesso. É a que mais vende também. É a mais pop. E é a que mais ousa. Além do que falar de GaGa sem falar da imagem dela é um pecado! O lance da moça, mais do que as músicas para dançar, são as letras kind of cool, como ‘i wanna take a ride on you disco stick’ ou ‘i’m a free bitch baby’, e as apresentações bizarras, com sangue, gente pendurada, peitos que cospem fogo e roupas que quase beiram à bagaceirice de tanto não fazerem sentido. Recentemente, GaGa declarou que ela não é modelo, não é atriz e que não precisa ser bonita e elegante. Legal, né?
Agora, na Europa, a situação fica ainda mais interessante. O pop inglês, que mais tarde vende bastante no mundo, se renova muito constantemente. Tivemos Blur, Oasis e Arctic Monkeys, todos passados. No Charts UK feito pela Radio 1 da BBC, o que mais vende na terra da rainha hoje é o pessoal do ‘irmão’ inglês do American Idol, X-Factor. A ex-x-factor Leona Lewis, que alcançou estrondoso sucesso mundial de vendas com ‘Bleeding Love’, sempre está entre os dez mais tocados. Atualmente, Alexandra Burke, Laura White, Cheryl Cole e a boyband JLS, todos também do mesmo reality show, ‘topeiam’ as paradas por lá.
Há também a cena do pop inglês de meninas com letras ousadinhas e som eletrônico, que se iniciou mais ou menos há uns 7 anos com a Jem e tem trazido nomes como Lily Allen, Kate Nash, Katie White (do Ting Tings) e Florence Welch, só para citar alguns. Shakira, por exemplo, estreou depois de uma mega divulgação só na posição #26, muito baixo. Sem falar da cena synthpop de La Roux, Bat for Lashes, FrankMusik, Ellie Goulding, pessoal que tem levado os prêmios ‘pop’ e ‘indie’ das maiores revistas inglesas, como Mobo e NME magazine.
Por fim, como falar de música pop sem falar de Black Eyed Peas? O grupo, e a Fergie, é claro, tomou de assalto totalmente as paradas do mundo inteiro com o último álbum. Os caras ficaram umas 20 semanas nos EUA em #1 com ‘I Gotta Feeling’ e ‘Boom Boom Pow’. Na Inglaterra, a mesmíssima coisa. E o novo single ‘Meet me Halfway’ está a caminho de repetir o sucesso das músicas anteriormente lançadas de ‘The E.N.D’.
O universo Pop tem disso. Por debaixo de uma superfície aparentemente fútil, há uma efervescência de produções que o mantém vivo e que, pela rapidez com que acontece, acaba passando sem que se perceba. O lance aqui é estar atento às mudanças e entender que, aqui, nem tudo é o que parece. Aquilo que hoje é hype, amanhã pode se tornar ultrapassado. Mesmo.

Não existe outro espaço dentro da música que sofra tantas reviravoltas em tão pouco tempo com o do Pop. Acusado de reproduzir mesmices, ele parece carecer, na verdade, de uma análise capaz de encarar este tipo de arte como sendo séria. Dizer que a ousadia e o novo não encontram lugar dentro de um mundo preocupado em reproduzir ‘o mesmo’ guiado pela lógica mercantilista não é melhor caminho.

Nos Estados Unidos, por exemplo, nem Shakira, nem Madonna, nem Mariah Carey fazem atualmente as músicas mais ouvidas, aquela que é pop de popular mesmo. Apesar disso, embora Shakira tenha trabalhado com o Timbaland, produtor batido que acaba de lançar seu segundo álbum de estúdio e single novo com participação da cantora francesa que ninguém conhece ‘So shy’ (essa, sim, com sonoridade nova, devo dizer), o ‘She Wolf’ é bem diferente de ‘Oral Fixation’ e ‘Laundry Service’, só para citar os trabalhos lançados em inglês. Existe evolução evidente no novo álbum, tanto no que tange às letras quanto ao que se refere às próprias produções, que têm um ar dance bem forte.

Em relação à Mariah, tenho uma ponderação. Discordo de quem afirma que ‘Memoirs of an Imperfect Angel’ remete, por causa das baladas, ao início da carreira. ‘Obsessed’ está aí para dizer o contrário. ‘Memoirs’, na verdade, parece uma tentativa de resgatar o sucesso de público e de crítica do aclamado ‘The Emancipation of Mimi’ (2005), um CD que carregou baladas de enorme sucesso mundial, como ‘We Belong Together’ e ‘Don’t Forget About Us’. Vale lembrar que, às vésperas do lançamento de seu filme “Glitter”, em 2001, e do final do casamento com o Motolla, que aconteceu um pouco antes, a carreira de Mariah estava destruída. O lançamento de 2005 não só a ressuscitou como deu um boost absurdo na imagem dela. Quando ‘E=MC²’ chegou às lojas, Mariah veio com a ‘desculpa’ de que o CD tinha mais hip-hop porque era ‘a sobremesa do Emancipation of Mimi’. O álbum, que de doce não tinha nada, nem sequer se equiparou ao sucesso do anterior. Este contexto, para mim, explica bem melhor as baladas de ‘Memoirs of an Imperfect Angel’.

Falar de Rihanna, hoje, é complicado. A comparação do controverso ‘Rated R’ com ‘Good Girl Gone Bad’ é muito forçada. GGGB possui hits mundiais estrondosos. ‘Rated R’ é um álbum sombrio, fruto de um trabalho da artista sobre o caso de agressão de Chris Brown. ‘Rated R’, talvez, seja o trabalho pop ‘mais difícil’ de ser interpretado e absorvido por amantes de ‘Umbrella’, ‘Don’t Stop the Music’, ‘Rehab’ e ‘Shut up and Drive’. A produção do novo CD é obscura e as letras, não raras vezes, são amargas. A primeira música de trabalho, por exemplo, ‘Russian Roulette’, é sobre uma menina que se mata! A música chegou a até ser acusada de poder influenciar garotas indefesas a quererem se suicidar. De ‘you can stand under my umbrella’ para ‘so pull the trigger’, há um longo e tortuoso caminho. Sem contar passagens como ‘It’s too late to think of the value of my life’.

O que falar de Lady GaGa? Dizer que a moça busca influências dos anos 80 e anos 90 é redundante. Redundante porque é muito abrangente e não quer dizer absolutamente nada. Qualquer músico que existe hoje com certeza tem alguma influência de alguma coisa que aconteceu nos últimos 30 anos na música. É aqui que acho que o ‘a regra do pop é não ousar’ cai por terra. Das 4 cantoras citadas, ela é a que mais faz sucesso. É a que mais vende também. É a mais pop. E é a que mais ousa. Além do que falar de GaGa sem falar da imagem dela é um pecado! O lance da moça, mais do que as músicas para dançar, são as letras kind of cool, como ‘i wanna take a ride on you disco stick’ ou ‘i’m a free bitch baby’, e as apresentações bizarras, com sangue, gente pendurada, peitos que cospem fogo e roupas que quase beiram à bagaceirice de tanto não fazerem sentido. Recentemente, GaGa declarou que ela não é modelo, não é atriz e que não precisa ser bonita e elegante. Legal, né?

Agora, na Europa, a situação fica ainda mais interessante. O pop inglês, que mais tarde vende bastante no mundo, se renova muito constantemente. Tivemos Blur, Oasis e Arctic Monkeys, todos passados. No Charts UK feito pela Radio 1 da BBC, o que mais vende na terra da rainha hoje é o pessoal do ‘irmão’ inglês do American Idol, X-Factor. A ex-x-factor Leona Lewis, que alcançou estrondoso sucesso mundial de vendas com ‘Bleeding Love’, sempre está entre os dez mais tocados. Atualmente, Alexandra Burke, Laura White, Cheryl Cole e a boyband JLS, todos também do mesmo reality show, ‘topeiam’ as paradas por lá.

Há também a cena do pop inglês de meninas com letras ousadinhas e som eletrônico, que se iniciou mais ou menos há uns 7 anos com a Jem e tem trazido nomes como Lily Allen, Kate Nash, Katie White (do Ting Tings) e Florence Welch, só para citar alguns. Shakira, por exemplo, estreou depois de uma mega divulgação só na posição #26, muito baixo. Sem falar da cena synthpop de La Roux, Bat for Lashes, FrankMusik, Ellie Goulding, pessoal que tem levado os prêmios ‘pop’ e ‘indie’ das maiores revistas inglesas, como Mobo e NME magazine.

Por fim, como falar de música pop sem falar de Black Eyed Peas? O grupo, e a Fergie, é claro, tomou de assalto totalmente as paradas do mundo inteiro com o último álbum. Os caras ficaram umas 20 semanas nos EUA em #1 com ‘I Gotta Feeling’ e ‘Boom Boom Pow’. Na Inglaterra, a mesmíssima coisa. E o novo single ‘Meet me Halfway’ está a caminho de repetir o sucesso das músicas anteriormente lançadas de ‘The E.N.D’.

O universo Pop tem disso. Por debaixo de uma superfície aparentemente fútil, há uma efervescência de produções que o mantém vivo e que, pela rapidez com que acontece, acaba passando sem que se perceba. O lance aqui é estar atento às mudanças e entender que, aqui, nem tudo é o que parece. Aquilo que hoje é hype, amanhã pode se tornar ultrapassado. Mesmo.


“Pernas pro Ar” confirma o talento de Claudia Raia

Por Robledo Milani

Se há uma verdadeira Diva no Brasil, essa se chama Claudia Raia! Suzana Vieira, Betty Faria, Vera Fisher ou Regina Duarte que me perdoem, mas La Raia é a única que pode, com a consciência tranquila, ser chamada de ‘artista completa’. E seu novo espetáculo, “Pernas pro Ar”, é a prova perfeita disso: ela canta, dança e atua com igual desenvoltura, mostrando um talento inquestionável.

Com argumento do escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo, texto de Marcelo Saback (que já havia adaptado outra escritora do Rio Grande do Sul – no caso, Martha Medeiros – para o teatro, em “Divã”) e direção de Cacá Carvalho, “Pernas pro Ar” é um veículo ideal para os anseios e capacidades de Claudia Raia. Aqui ela aparece como uma dona de casa medíocre, que leva sua vidinha comum e sem solavancos até o dia em que suas pernas decidem se revoltar contra essa mesmice. Desse modo, ela passa a se arriscar em coisas novas, como uma aula de aeróbica mais movimentada, uma visita médica apimentada ou até mesmo um debate entre crenças religiosas de última hora. Tudo para experimentar um lado mais alegre, colorido e inesperado da própria vida.

Como fica bem claro, Veríssimo cedeu apenas a ideia, o conceito do espetáculo. E nada é mais Veríssimo do que presenciar pessoas comuns em situações extraordinárias. Claudia Raia, a partir deste ponto, transformou tudo segundo o seu ponto de vista, agitando esta mistura. Como resultado temos uma sequência de sketches, que se sucedem sem grandes surpresas, mas de forma ordenada e envolvente. Tudo começa num sonho, e assim – aparentemente – termina. Se o Diabo lhe aparece para ensinar uma nova música, o melhor é não resistir e aprender logo como se dança, não?

“Pernas pro Ar” é um musical no conceito original do termo, com muitas canções, figurinos e um cenário simples, porém bastante criativo, dotado de interessantes projeções que em questão de segundos nos arrastavam de um universo a outro. As músicas – a grande maioria versões nacionais de sucessos estrangeiros – não soam tão estranhas, e muitas casam com perfeição com o roteiro. “Febre” (“Fever”, de Peggy Lee), e “Tudo é Transformação” (“You Can Leave Your Hat On”, do Tom Jones), são algumas das mais facilmente reconhecíveis. Dá vontade de comprar o CD após a apresentação, para irmos embora cantarolando temas que se adaptaram bem ao nosso português.

Entre os coadjuvantes, os principais destaques estão entre os homens, que dominam a ação com tranqüilidade. Entre as mulheres, chama atenção apenas o número das santas – um dos mais cômicos – em que elas justificam suas participações. Mas nada é mais importante em todo este incrível show do que Claudia Raia, uma mulher empreendedora que merece com respeito e admiração uma intensa salva de palmas. É possível ver no rosto dela a satisfação por cada passo, nota ou sorriso bem dado, todos refletidos na platéia em perfeita sintonia. “Pernas pro Ar” deixa qualquer um de queixo caído, tão realizado quanto a estrela que dominou o palco por inteiro. E esta sensação é mais do que merecida!

www.pernasproar.com.br


Afinal, quanto dura o amor?

Por Robledo Milani

O cineasta paulista Roberto Moreira levanta, em seu segundo longa-metragem (após o elogiado “Contra Todos”), uma das questões mais comuns dos relacionamentos modernos: afinal, por quanto tempo e por quantas provações uma história de amor pode sobreviver? E pela ciranda de experiências, desilusões e desencontros que o filme “Quanto Dura o Amor?” apresenta, a resposta não parece ser a mais satisfatória.

Aos moldes dos filmes do saudoso Robert Altman, Moreira coloca várias tramas em cena, cruzando-as em menor ou maior grau, dependendo do próprio interesse. Três delas despertam mais atenção. Maria Clara Spinelli é uma advogada que se apaixona por um colega de trabalho – e o desejo é recíproco. Só que ela guarda um segredo: é transexual. Como ele irá reagir ao descobrir esta verdade? A cantora Danni Carlos aparece como… uma cantora! Ela está no meio de um triângulo amoroso entre um belo rapaz (Paulo Vilhena) e uma garota recém chegada do interior (Silvia Lourenço). Qual dos dois ela irá escolher? E por fim há um escritor (Fábio Herford) viciado numa garota de programa (Leilah Moreno). Ele quer amor, ela só pode oferecer sexo. E agora?

Todos estes dilemas são levantados com bastante seriedade, apesar do tom geral do filme não ser dos mais dramáticos. A discurso assumido é de que essas são situações da vida moderna. Ninguém é de ninguém. E não há limites ou ordens sobre quem devemos gostar, como ou quanto. Homens, mulheres, prostitutas, gays, lésbicas, brancos, negros. O que importa é amar. Muito ou pouco, isso sim é que varia. E é o que nos torna únicos.

A direção de Roberto Moreira é correta, sem grandes arrojos, porém de acordo com o objetivo geral de servir como um retrato da realidade, sem muita interferência. E ele também é responsável por dar a liberdade necessária ao elenco criar e se soltar. As novatas Spinelli e Carlos assumem papéis muito próximos de suas realidades, e isso certamente deve ter lhes oferecido a segurança necessária para encararem o desafio. E o resultado é primoroso. Vilhena não parece almejar nada além do que ser o galã da ocasião, e é isso que ele faz aqui (diferente da composição um pouco mais elaborada por ele apresentada em “Chega de Saudade”). Já a surpresa mesmo é Silvia Lourenço, que a cada novo trabalho se confirma como um dos maiores talentos da atual geração de intérpretes nacionais.

“Quanto Dura o Amor?” não surpreende, mas emociona. Não choca, mas envolve. Não perturba, mas provoca a reflexão. E estes caminhos são muito mais apropriados. Um trabalho maduro e elegante, dentro de um viés cosmopolita e universal. Se passa em São Paulo, mas poderia ser em qualquer lugar do mundo. Fala-se de pessoas, e no interior somos todos iguais. Mas cada um do seu jeito.

Quanto Dura o Amor?, Brasil, 2009

De Roberto Moreira

Com Silvia Lourenço, Maria Clara Spinelli, Paulo Vilhena, Danni Carlos, Leilah Moreno, Gustavo Machado, Fábio Herford, Paula Pretta, Ailton Graça, Sérgio Guizé

http://quantoduraoamor.com.br/v1/

(nota 7,5)


Amor do Começo ao Fim

Por Robledo Milani

Read the rest of this entry »


Como os Outros

Por Robledo Milani

O mais curioso do comovente “Baby Love” é tentar entender o porquê deste título nacional! Afinal, trata-se de uma produção francesa, cuja denominação original é “Commes Les Autres”, ou seja, “Como os Outros”! E é justamente sobre isso que aborda o filme, de uma situação que poderia acontecer com qualquer um, mas que ganha um olhar todo diferenciado por estarmos tratando de personagens homossexuais. E o tema em questão não poderia ser mais universal: a vontade de formar família através da procriação. A diferença, claro, está na forma não convencional como a equação matemática ‘homem + mulher = bebê’ irá ser processada. Claro que um nome em inglês contribui nesta ‘universalidade’, mas será que se fosse em português a comunicação aqui no Brasil não seria mais eficiente?

Veterano da televisão francesa, o diretor e roteirista Vincent Garenq inspirou-se num fato verídico, acontecido com um amigo dele, para estrear no cinema com “Baby Love”. E a estrutura do filme, bastante tradicional, denuncia esta falta de prática com o meio. Nada, no entanto, que chegue a prejudicar o resultado final. Apenas fica uma sensação de que o importante aqui era somente contar uma história, porém sem grandes lances de originalidade ou invenção. Garenq sabe o que quer dizer, mas sem ter muita certeza de como. E se o longa já tem um público certo – homossexuais não conseguirão resistir, assim como qualquer espectador mais sensível – ele peca em não conseguir ampliar seu alcance de interesse, o que poderia ser perfeitamente alcançável. Estamos falando de um desejo humano, o da geração de descendentes, e esta vontade é completamente universal.

Manu e Philippe formam um casal há anos, exemplo para a família e amigos. Eles são muito parecidos – ambos são profissionais liberais (um é médico, o outro advogado), estão em torno dos 40 anos, apreciam artes, são apegados aos parentes e levam vidas tranqüilas – não fosse por um pequeno detalhe: Manu quer ter um filho, enquanto que Philippe é contrário à ideia. Como o primeiro está decidido e pretende levar adiante o plano de adotar uma criança, os dois acabam se separando. Mesmo sozinho, Manu segue firme em seu propósito, que sofre logo em seguida outro baque: ele tem seu pedido recusado ao revelar que é gay. Desanimado, encontra uma nova chance ao conhecer uma jovem argentina, Fina, que aceita a proposta de ser ‘barriga de aluguel’ para ele. Mas nada será tão simples: enquanto ele passa a sentir cada vez mais a falta do antigo amante, ela não conseguirá evitar a atração que começa a sentir pelo novo amigo.

Um dos principais méritos de “Baby Love” é o seu trio de protagonistas, todos muito seguros em seus papéis. Lambert Wilson, nome importante do cinema francês e com desempenhos de destaque em filmes como “Medos Privados em Lugares Públicos” (2006), além de ser presença constante no cinema americano, como visto em “Matrix Reloaded” (2003), “Mulher-Gato” (2004), “Sahara” (2005), “Um Plano Perfeito” (2007) e “Missão Babilônia” (2008), dá vida a um Manu delicado, porém másculo, escapando dos trejeitos mais óbvios. Outro que foge fácil do clichê é Pascal Elbé, como Philippe. Os dois formam um casal plenamente convincente, distante do riso fácil e da piada constrangedora. São dois homens, que amam um ao outro, e que estão enfrentando um momento bastante decisivo no relacionamento que construíram. A espanhola Pilar López de Ayala (“Alatriste”, 2006) completa o trio, como uma Fina repleta de nuances, capaz de alternar momentos de grande entrega com outros de surpresa, ilusão e até comovente tristeza.

“Baby Love” não é o melhor filme gay já feito, principalmente porque seu enredo é sábio o suficiente para ir além do gueto. É uma produção familiar, que fala de assuntos comuns a todos e perfeitamente identificável. Em tempos em que muito se fala sobre casamento gay, é importante lembrar da necessidade de conquista de outros direitos, como o da formação de família. E num mundo tão carente de auxílio e carinho, é quase incompreensível como leis e diretrizes ultrapassadas ainda possam impedir que o afeto e o amor chegue a quem mais necessita. Respeito é fundamental, e ele vai muito além de questões como sexo, religiosidade ou classe social. E neste ponto este belo filme deixa bem clara a sua mensagem.

Commes Les Autres, França, 2008
De Vincent Garenq
Com Lambert Wilson, Pascal Elbé, Pilar López de Ayala
www.marsdistribution.com/film/comme_les_autres

( nota 8 )


Testemunhas de uma Nova Era

Por Robledo Milani

O drama do surgimento da AIDS, já visto sob tantas e diferentes óticas pela sétima arte, ganha agora uma nova visão em “As Testemunhas”, do francês André Techiné. E o resultado é um trabalho tão comovente quanto objetivo. O realizador não perde tempo com desvios ou melodramas baratos, construindo uma narrativa bastante direta e realista sobre como esta nova doença afetou os hábitos sexuais de milhares de pessoas ao redor do mundo, tendo como espelho dois casais numa Paris ainda libertária, porém temerosa pelo papel de vanguarda que ansiava por manter. É um longa corajoso, de impressionante impacto e extremamente eficiente em sua comunicação.

Manu (Johan Libéreau) é um garoto que chega do interior para morar com a irmã (Julie Depardieu, de “A Culpa é do Fidel”). Enquanto ela sonha em se firmar como cantora lírica, ele quer aproveitar a vida e se divertir. Ao passear à noite num parque em busca de um parceiro sexual, encontra Adrien (Michel Blanc, de “Você é Tão Bonito”), um médico uns 30 anos mais velho do que ele. Os dois começam a sair juntos, mas mantendo apenas uma amizade – apesar da atração que o doutor sente pelo rapaz. Num final de semana, vão juntos visitar no litoral um casal de amigos. Ela (Emmanuelle Béart, de “8 Mulheres” e “Missão Impossível”) é uma escritora de livros infantis em crise pós-parto. Ele (Sami Bouajila) é um policial, apaixonado pela esposa, mas inseguro da própria sexualidade. Os dois mantém um relacionamento aberto, e as traições mútuas nunca foram levadas muito a sério. Até que ele se descobre atraído pelo jovem visitante. A paixão que surge entre os dois só será abalada quando o mais novo passa a apresentar sintomas da misteriosa doença.

Téchiné, famoso cineasta que desde o início dos anos 70 vem realizando trabalhos de grande repercussão, como “Minha Estação Favorita”, “As Rosas Selvagens” e “Alice e Martin”, assume também o roteiro desta obra bela, triste e tocante. A aparente frieza do personagem principal pode parecer estranha num primeiro momento, mas é completamente natural se levarmos em conta o ano enfocado – 1984 – e as condições envolvidas. O modo como Manu passeia pelas vidas de todos ao seu redor é comovente e interessante, pois desperta uma estranha curiosidade, sem nunca se envolver ou entregar em exagero. No entanto, quando isso finalmente acontece, parece que havia um preço a ser pago. E o modo como a AIDS e todas as suas complicações se impuseram na sociedade moderna ganha um viés clínico, quase calculista, mas muito bem contrabalanceado pela dor e sentimento de desamparo que provocou nos diretamente afetados – como todos os personagens aqui retratados.

“As Testemunhas” foi selecionado para o Festival de Berlim de 2007 e exibido pela primeira vez no Brasil durante o Festival do Rio do mesmo ano. Com mais de dois anos de atraso, finalmente chega até nós um trabalho maduro e inteligente em sua abordagem, porém sem nunca deixar de fora o lado humano que este mal ainda hoje pouco compreendido acarreta. Bastante elogiado pela crítica, foi eleito o Melhor Filme no Festival de Cinema Gay da República Checa, além de ter recebido quatro indicações ao César (o Oscar francês): melhor direção, ator (Blanc), revelação masculina (Libéreau) e ator coajuvante (Bouajila), tendo sido premiado nesta última. Um reconhecimento apropriado, porém ainda tímido diante dos méritos que a obra carrega consigo. Mas talvez os ganhos apresentados não possam, mesmo, ser medidos em prêmios ou aplausos, e sim em como irá afetar o comportamento de cada um que estiver na platéia.

Les Témoins, França, 2007
De André Téchiné
Com Johan Libéreau, Michel Blanc, Emmanuelle Béart, Sami Bouajila, Julie Depardieu
www.imdb.com/title/tt0487273/

( nota 8 )


Sob o Sol da Califórnia

Por Robledo Milani

Comédia romântica é tudo igual. É só prestar atenção no esquema básico: os dois atores que aparecem no cartaz se encontram no começo do filme, decidem ficar juntos, mas logo um obstáculo surge separando-os, para em seguida ser superado e dar lugar ao aguardado final feliz. Mas de vez em quando essa equação é alterada em algum ou outro fator. E em “De Repente, Califórnia”, a diferença é anunciada de imediato: o casal protagonista é formado por dois homens. Se alguém, no mundo em que vivemos, ainda se choca com isso, então é melhor rever seus conceitos. Porque esta situação, cada vez mais comum, é apenas um reflexo da maturidade da nossa sociedade. E se é tão comum, qual o problema de vê-la refletida também nas artes? E o cinema, até por sua imensa popularidade, é um excelente meio para expô-la sem censuras e com bastante naturalidade. Exatamente como aqui é feito. Ponto para a produção!

Zach (o novato Trevor Wright, em performance nada afetada e muito realista) é um rapaz em crise. Ele vive com o pai bêbado, a irmã mais velha e com o filho desta, que é mais criado por ele próprio do que por ela. Trabalhando como cozinheiro numa lanchonete, tem como sonho cursar a faculdade e se tornar um artista plástico, devido a sua afinidade com o desenho. Mas e seus compromissos com aquela família que conta com ele como único pilar realmente estruturado entre eles? As coisas começam a mudar quando conhece Shaun (Brad Rowe, de “O Beijo Hollywoodiano de Billy”), irmão mais velho do seu melhor amigo. Um sentimento novo surge, algo que até então desconhecia. E aos poucos os dois vão se aproximando, até que acontece o primeiro beijo.

A partir do momento em que fica claro que há atração entre eles, tudo o que se pode esperar de uma situação dessas se sucede. Negação, afastamento, confronto, enfrentamento, aceitação. Zach, um adolescente que teve que amadurecer com muita velocidade, tem outro desafio pela frente – se aceitar exatamente como é. Mas a sorte dele é que para isso terá ao seu lado uma pessoa mais experiente, vivida e compreensiva, disposta a ajudá-lo, mostrando que o verdadeiro amor é mais do que sexo e curtição. E todas as dificuldades anteriores, que eram vividas apenas por um, agora passam a ser dos dois. Um time apaixonado e entregue um no outro. E é justamente nesta compreensão de tão confusos e estranhos sentimentos, que surgem sem pedir licença ou permissão, que “De Repente, Califórnia” se destaca, confirmando-se como uma história não apenas direcionada a um grupo específico, mas a qualquer espectador mais sensível.

“De Repente, Califórnia” foi escrito e dirigido por Jonah Markowitz, em sua estreia como realizador. Antes disso havia trabalhado no departamento de arte de filmes tão diferentes quanto “Casa de Areia e Névoa” (2003), “Jogos Mortais” (2004), “Entrando Numa Fria Maior Ainda” (2004), “De Repente é Amor” (2005), “Alpha Dog” (2006) e “Rocky Balboa” (2006). Esta variada experiência se reflete no cuidado em detalhes deste seu primeiro longa-metragem, seja pela bela fotografia, pelos cenários primorosamente escolhidos e pela boa ambientação dos personagens. Mas há mais, e esta trama simples e aparentemente banal só enriquece pela sinceridade dos sentimentos abordados e pelas soluções que, apesar de convencionais, ainda conseguem emocionar.

Se este é o tipo de filme que um público maior ainda tem que descobrir, a crítica especializada já deu o seu aval. “De Repente, Califórnia” foi premiado em diversos festivais de cinema com temática gay & lésbica, com destaque para o L.A. Outfest, o GLAAD Media Awards, em Dallas, Tampa, Seattle e na Filadélfia, entre outros lugares. Uma bonita e comovente história de amor, que foge dos chavões mais óbvios com elegância e discrição, sem nunca se assustar com as bandeiras que defende. Um enredo universal, que felizmente aqui é abordado com delicadeza, inteligência e bom humor.

Shelter, EUA, 2007
De Jonah Markowitz
Com Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth, Katie Walder, Matt Bushnell, Ross Thomas
www.heretv.com/sheltermovie/

(nota 7,5)


O choque de “Brüno”

Por Robledo Milani

Muito se falou a respeito de “Brüno”, o novo trabalho de Sacha Baron Cohen, o mesmo homem por trás do absurdo “Borat”, de 2006. Este novo filme foi acusado de ser racista, inverossímil, gratuito, ridículo, abusivo, ousado, ofensivo, polêmico, vergonhoso, impróprio, debochado. E estão todos certos, porém incompletos. Afinal, é tudo isso e muito mais! Novamente sob direção de Larry Charles (que também esteve por trás de séries como “Seinfeld”, “Mad About You”, “Entourage” e “Curb Your Enthusiasm”), este é um legítimo “mockumentário”, ou seja, um falso documentário que acaba revelando muito mais verdades do que seus similares aparentemente honestos. E, driblando as regras do jogo – ou melhor ainda, usando-as a seu favor – Cohen conseguiu fazer um dos retratos mais cruéis e íntimos da nossa sociedade no que diz respeito ao preconceito, racismo e intolerância. E o melhor de tudo? Utilizando o mais inconseqüente dos tipos como protagonista! Insólito e hilariamente propício.

Brüno, assim como Borat, é um personagem criado por Sacha Cohen no programa de humor que tinha na Inglaterra, algo mais ou menos nos moldes do nossoCasseta & Planeta – guardada as devidas proporções, é claro. Trata-se de um repórter assumidamente gay que apresenta um programa sobre moda da televisão austríaca – ele chega a afirmar, em determinado momento, que é o segundo maior ícone a sair da Áustria, após Hitler! Como se pode perceber, o rapaz pode ser acusado de tudo, menos de temer controvérsias. E isso ele provoca inúmeras, do início ao fim. Após uma desastrosa participação na Fashion Week de Milão, é expulso e perde o próprio show. Sem ter para onde ir, decide se mudar para Los Angeles e virar celebridade. Como? Primeiro atuando, depois entrevistando outras estrelas, e até se engajando em causas sociais. Sempre sem a menor noção do impacto que causa ao passar. Mas sempre registrando tudo com uma câmera invasiva e pra lá de indiscreta. Felizmente!

O mais espantoso de “Brüno” é que são poucos os que tinham consciência de que se tratava de um filme de aparente ficção em desenvolvimento. Cohen, Gustaf Hammarsten (um Jeff Daniels sueco) e outros dois ou três é que estavam realmente atuando – todos os demais são registrados agindo naturalmente, sem perceber no que estão envolvidos. E, dessa forma, acabam revelando muito mais do que obviamente gostariam – e entregando justamente o que os realizadores buscavam, uma verdade sem disfarces ou máscaras. Os pais que prometem emagrecer bebês apenas para participar de campanhas publicitárias, o pastor que acredita piamente ser possível acabar com a homossexualidade de um homem, o médium que jura estar se comunicando com alguém supostamente falecido – e que de fato está bem vivo! – a plateia ofendida de um programa de auditório e até participantes de um swing entre casais, são todos desnudados sem cerimônia ou piedade, confrontando o público com algo tão ou mais chocante do que a figura daquele que nos conduz nesta jornada.

“Brüno” provoca, incomoda e choca, mas, acima de tudo, faz pensar. Aquele na audiência que conseguir ir além do espanto inicial irá se deparar com algo brutalmente corajoso, revelando um foco muito mais apurado do que aquele exercitado em “Borat”, por exemplo. E, ao contrário de Michael Moore (com quem é constantemente comparado), Cohen faz proveito de si mesmo para comprovar suas teorias, deixando que imagens e situações provocadas quase que ao acaso falem por si só, sem grandes explicações. E, se após tudo isso, ainda restarem dúvidas, o testemunho final explicitado através das participações de algumas das maiores estrelas da música mundial – Bono, Chris Martin, Slash, Sting, Snoop Dogg e até Elton John! – deixa bem claro que a mensagem é pertinente. O importante é estar atento e saber do que está se rindo.

Brüno, EUA, 2009
De Larry Charles
Com Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale, Josh Meyers, Paula Abdul, Harrison Ford, Bono, Chris Martin, Elton John, Slash, Snopp Dogg, Sting

www.thebrunomovie.com

(nota 9)


A Voz da Igualdade

Por Robledo Milani

É particularmente difícil tecer uma crítica à “Milk – A Voz da Igualdade”. E isso se deve ao fato deste ser um filme absolutamente perfeito! Realizado no momento certo, pelos artistas ideais e tratando de um tema mais do que pertinente, com um enfoque adequado e sem concessões, é um caso raro em que a soma dos elementos reunidos conseguiu criar algo ainda mais emblemático. Indicado em 8 categorias do Oscar 2009, inclusive nas principais, como Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante e Roteiro Original, provavelmente não irá receber todo o reconhecimento que merece. Mas isso não será problema – o verdadeiro impacto que um longa como esse provoca só pode ser percebido em sua totalidade na expressão que deixa e no sentimento que provoca em cada um dos seus espectadores.

Apesar do título, não está se falando aqui de leite, e sim da vida e dos feitos realizados por Harvey Milk, um homem que chegou aos 40 anos sem ter feito nada de muito importante, mas que, ao falecer, pouco menos de uma década depois, deixou um legado que até hoje repercute. Milk foi nada menos do que o primeiro homossexual assumido a ser eleito a um cargo político nos Estados Unidos – e, provavelmente, em todo o mundo! Sua intenção era simples: mudar o mundo da porta de sua casa. E o que fez foi realmente impressionante.

Ao conhecer Scott, um rapaz uns 15 anos mais novo, Harvey recebeu a inspiração que há muito ansiava e decidiu mudar: largou o emprego que o entediava, abandonou Nova York e seguiu para São Francisco ao lado da nova paixão. Lá, uma vez estabelecido com uma pequena lojinha de revelações fotográficas na Rua Castro, não encontrou um ambiente tão receptivo quanto imaginava. Mas, ao invés de se esconder, fez o contrário: saiu do “armário” com todas as forças e colocou a boca no mundo. E para se fazer ouvir criou barulho do modo certo – candidatando-se ao cargo de supervisor municipal, algo como um vereador. Assim, ele queria ser alguém no governo que iria se importar com sua causa e com a dos seus iguais. Finalmente alguém que ouviria o que esta minoria tem a dizer e que não poderia mais ficar calada.

Só que os movimentos de Milk foram ouvidos muito mais longe do que ele poderia ter esperado a princípio. E se sua jornada política não foi das mais fáceis, ao menos nunca desistiu – e nem os seus companheiros. Só que uma pedra aparentemente inofensiva se meteu no seu caminho – um outro colega, também supervisor novato, o religioso Dan White. E foi este homem que, motivado mais pela inveja e insegurança do que pelo preconceito ou discriminação, que terminou por assassiná-lo, ao lado do prefeito da cidade, meros 11 meses após ambos terem tomado posse de seus mandatos. Milk teve pouco tempo para fazer o que pretendia. Mas as mensagens que deixou e a repercussão dos atos que conseguiu executar não só atingiram seus objetivos como também marcaram toda uma geração.

“Milk – A Voz da Igualdade” não é só bem sucedido em mostrar a verdadeira face deste homem singular como também é um impressionante relato político. A trajetória desta personalidade é observada com muito equilíbrio entre o distanciamento que os fatos exigem e a aproximação que as emoções pedem. Escrito pelo jovem Dustin Lance Black, este texto é sábio em não cair nos clichês mais óbvios – como a suspeita de uma conspiração pela sua morte ou em endeusá-lo, isentando-o de falhas e defeitos – alternando momentos íntimos e conflitos pessoais com posições ousadas e reveladoras.

Outros méritos podem ser identificados por todos os lados. A direção de Gus van Sant (“Garotos de Programa, “Elefante” e “Gênio Indomável”) é sóbria e respeitosa, ajustada ao que quer contar sem resvalar no melodramático. O elenco de coadjuvante, que vai de Josh Brolin (“Onde os Fracos Não Tem Vez”) à Emile Hirsh (“Speed Racer”), passando por um exagerado Diego Luna (“E Sua Mãe Também”) e um carismático James Franco (“Homem-Aranha”), oferece o suporte ideal à uma das performances mais intensas e impressionantes do ano: Sean Penn, que, no papel principal, é protagonista de uma verdadeira transformação. Ele não interpreta Harvey Milk, simplesmente. Ele o vive com toda a vontade e força que um papel como este pode exigir. E o faz com tanta propriedade e direito que é quase impossível reconhecê-lo. Assim como Daniel Day-Lewis (“Sangue Negro”) no ano passado, é dono da interpretação mais estonteante do ano!

Comovente, perturbador, necessário, honesto. São poucas as palavras que fazem jus a uma obra como “Milk – A Voz da Igualdade”. Sua real relevância só poderá ser sentida daqui a alguns anos, repetindo um processo semelhante àquele visto com “O Segredo de Brokeback Mountain” – você consegue lembrar quem levou o Oscar daquele ano no lugar do romance dos caubóis gays? Militante sem ser irresponsável, justo sem ser enfadonho, abrangente sem ser irrelevante, este é um filme cujos efeitos merecem ser observados com cuidado. Talvez o que é dito aqui não lhe atinja hoje ou amanhã, mas aguarde, pois o discurso aqui é universal e um dia fará sentido não só a um ou dois, mas a todos por inteiro.

Milk, EUA, 2008
De Gus van Sant
Com Sean Penn, James Franco, Josh Brolin, Emile Hirsh, Diego Luna, Alison Pill, Victor Garber, Dennis O’Hare, Joseph Cross, Lucas Grabeel
www.filminfocus.com/focusfeatures/film/milk/

(nota 10)