Cinema

Afinal, quanto dura o amor?

Por Robledo Milani

O cineasta paulista Roberto Moreira levanta, em seu segundo longa-metragem (após o elogiado “Contra Todos”), uma das questões mais comuns dos relacionamentos modernos: afinal, por quanto tempo e por quantas provações uma história de amor pode sobreviver? E pela ciranda de experiências, desilusões e desencontros que o filme “Quanto Dura o Amor?” apresenta, a resposta não parece ser a mais satisfatória.

Aos moldes dos filmes do saudoso Robert Altman, Moreira coloca várias tramas em cena, cruzando-as em menor ou maior grau, dependendo do próprio interesse. Três delas despertam mais atenção. Maria Clara Spinelli é uma advogada que se apaixona por um colega de trabalho – e o desejo é recíproco. Só que ela guarda um segredo: é transexual. Como ele irá reagir ao descobrir esta verdade? A cantora Danni Carlos aparece como… uma cantora! Ela está no meio de um triângulo amoroso entre um belo rapaz (Paulo Vilhena) e uma garota recém chegada do interior (Silvia Lourenço). Qual dos dois ela irá escolher? E por fim há um escritor (Fábio Herford) viciado numa garota de programa (Leilah Moreno). Ele quer amor, ela só pode oferecer sexo. E agora?

Todos estes dilemas são levantados com bastante seriedade, apesar do tom geral do filme não ser dos mais dramáticos. A discurso assumido é de que essas são situações da vida moderna. Ninguém é de ninguém. E não há limites ou ordens sobre quem devemos gostar, como ou quanto. Homens, mulheres, prostitutas, gays, lésbicas, brancos, negros. O que importa é amar. Muito ou pouco, isso sim é que varia. E é o que nos torna únicos.

A direção de Roberto Moreira é correta, sem grandes arrojos, porém de acordo com o objetivo geral de servir como um retrato da realidade, sem muita interferência. E ele também é responsável por dar a liberdade necessária ao elenco criar e se soltar. As novatas Spinelli e Carlos assumem papéis muito próximos de suas realidades, e isso certamente deve ter lhes oferecido a segurança necessária para encararem o desafio. E o resultado é primoroso. Vilhena não parece almejar nada além do que ser o galã da ocasião, e é isso que ele faz aqui (diferente da composição um pouco mais elaborada por ele apresentada em “Chega de Saudade”). Já a surpresa mesmo é Silvia Lourenço, que a cada novo trabalho se confirma como um dos maiores talentos da atual geração de intérpretes nacionais.

“Quanto Dura o Amor?” não surpreende, mas emociona. Não choca, mas envolve. Não perturba, mas provoca a reflexão. E estes caminhos são muito mais apropriados. Um trabalho maduro e elegante, dentro de um viés cosmopolita e universal. Se passa em São Paulo, mas poderia ser em qualquer lugar do mundo. Fala-se de pessoas, e no interior somos todos iguais. Mas cada um do seu jeito.

Quanto Dura o Amor?, Brasil, 2009

De Roberto Moreira

Com Silvia Lourenço, Maria Clara Spinelli, Paulo Vilhena, Danni Carlos, Leilah Moreno, Gustavo Machado, Fábio Herford, Paula Pretta, Ailton Graça, Sérgio Guizé

http://quantoduraoamor.com.br/v1/

(nota 7,5)


Amor do Começo ao Fim

Por Robledo Milani

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Como os Outros

Por Robledo Milani

O mais curioso do comovente “Baby Love” é tentar entender o porquê deste título nacional! Afinal, trata-se de uma produção francesa, cuja denominação original é “Commes Les Autres”, ou seja, “Como os Outros”! E é justamente sobre isso que aborda o filme, de uma situação que poderia acontecer com qualquer um, mas que ganha um olhar todo diferenciado por estarmos tratando de personagens homossexuais. E o tema em questão não poderia ser mais universal: a vontade de formar família através da procriação. A diferença, claro, está na forma não convencional como a equação matemática ‘homem + mulher = bebê’ irá ser processada. Claro que um nome em inglês contribui nesta ‘universalidade’, mas será que se fosse em português a comunicação aqui no Brasil não seria mais eficiente?

Veterano da televisão francesa, o diretor e roteirista Vincent Garenq inspirou-se num fato verídico, acontecido com um amigo dele, para estrear no cinema com “Baby Love”. E a estrutura do filme, bastante tradicional, denuncia esta falta de prática com o meio. Nada, no entanto, que chegue a prejudicar o resultado final. Apenas fica uma sensação de que o importante aqui era somente contar uma história, porém sem grandes lances de originalidade ou invenção. Garenq sabe o que quer dizer, mas sem ter muita certeza de como. E se o longa já tem um público certo – homossexuais não conseguirão resistir, assim como qualquer espectador mais sensível – ele peca em não conseguir ampliar seu alcance de interesse, o que poderia ser perfeitamente alcançável. Estamos falando de um desejo humano, o da geração de descendentes, e esta vontade é completamente universal.

Manu e Philippe formam um casal há anos, exemplo para a família e amigos. Eles são muito parecidos – ambos são profissionais liberais (um é médico, o outro advogado), estão em torno dos 40 anos, apreciam artes, são apegados aos parentes e levam vidas tranqüilas – não fosse por um pequeno detalhe: Manu quer ter um filho, enquanto que Philippe é contrário à ideia. Como o primeiro está decidido e pretende levar adiante o plano de adotar uma criança, os dois acabam se separando. Mesmo sozinho, Manu segue firme em seu propósito, que sofre logo em seguida outro baque: ele tem seu pedido recusado ao revelar que é gay. Desanimado, encontra uma nova chance ao conhecer uma jovem argentina, Fina, que aceita a proposta de ser ‘barriga de aluguel’ para ele. Mas nada será tão simples: enquanto ele passa a sentir cada vez mais a falta do antigo amante, ela não conseguirá evitar a atração que começa a sentir pelo novo amigo.

Um dos principais méritos de “Baby Love” é o seu trio de protagonistas, todos muito seguros em seus papéis. Lambert Wilson, nome importante do cinema francês e com desempenhos de destaque em filmes como “Medos Privados em Lugares Públicos” (2006), além de ser presença constante no cinema americano, como visto em “Matrix Reloaded” (2003), “Mulher-Gato” (2004), “Sahara” (2005), “Um Plano Perfeito” (2007) e “Missão Babilônia” (2008), dá vida a um Manu delicado, porém másculo, escapando dos trejeitos mais óbvios. Outro que foge fácil do clichê é Pascal Elbé, como Philippe. Os dois formam um casal plenamente convincente, distante do riso fácil e da piada constrangedora. São dois homens, que amam um ao outro, e que estão enfrentando um momento bastante decisivo no relacionamento que construíram. A espanhola Pilar López de Ayala (“Alatriste”, 2006) completa o trio, como uma Fina repleta de nuances, capaz de alternar momentos de grande entrega com outros de surpresa, ilusão e até comovente tristeza.

“Baby Love” não é o melhor filme gay já feito, principalmente porque seu enredo é sábio o suficiente para ir além do gueto. É uma produção familiar, que fala de assuntos comuns a todos e perfeitamente identificável. Em tempos em que muito se fala sobre casamento gay, é importante lembrar da necessidade de conquista de outros direitos, como o da formação de família. E num mundo tão carente de auxílio e carinho, é quase incompreensível como leis e diretrizes ultrapassadas ainda possam impedir que o afeto e o amor chegue a quem mais necessita. Respeito é fundamental, e ele vai muito além de questões como sexo, religiosidade ou classe social. E neste ponto este belo filme deixa bem clara a sua mensagem.

Commes Les Autres, França, 2008
De Vincent Garenq
Com Lambert Wilson, Pascal Elbé, Pilar López de Ayala
www.marsdistribution.com/film/comme_les_autres

( nota 8 )


Testemunhas de uma Nova Era

Por Robledo Milani

O drama do surgimento da AIDS, já visto sob tantas e diferentes óticas pela sétima arte, ganha agora uma nova visão em “As Testemunhas”, do francês André Techiné. E o resultado é um trabalho tão comovente quanto objetivo. O realizador não perde tempo com desvios ou melodramas baratos, construindo uma narrativa bastante direta e realista sobre como esta nova doença afetou os hábitos sexuais de milhares de pessoas ao redor do mundo, tendo como espelho dois casais numa Paris ainda libertária, porém temerosa pelo papel de vanguarda que ansiava por manter. É um longa corajoso, de impressionante impacto e extremamente eficiente em sua comunicação.

Manu (Johan Libéreau) é um garoto que chega do interior para morar com a irmã (Julie Depardieu, de “A Culpa é do Fidel”). Enquanto ela sonha em se firmar como cantora lírica, ele quer aproveitar a vida e se divertir. Ao passear à noite num parque em busca de um parceiro sexual, encontra Adrien (Michel Blanc, de “Você é Tão Bonito”), um médico uns 30 anos mais velho do que ele. Os dois começam a sair juntos, mas mantendo apenas uma amizade – apesar da atração que o doutor sente pelo rapaz. Num final de semana, vão juntos visitar no litoral um casal de amigos. Ela (Emmanuelle Béart, de “8 Mulheres” e “Missão Impossível”) é uma escritora de livros infantis em crise pós-parto. Ele (Sami Bouajila) é um policial, apaixonado pela esposa, mas inseguro da própria sexualidade. Os dois mantém um relacionamento aberto, e as traições mútuas nunca foram levadas muito a sério. Até que ele se descobre atraído pelo jovem visitante. A paixão que surge entre os dois só será abalada quando o mais novo passa a apresentar sintomas da misteriosa doença.

Téchiné, famoso cineasta que desde o início dos anos 70 vem realizando trabalhos de grande repercussão, como “Minha Estação Favorita”, “As Rosas Selvagens” e “Alice e Martin”, assume também o roteiro desta obra bela, triste e tocante. A aparente frieza do personagem principal pode parecer estranha num primeiro momento, mas é completamente natural se levarmos em conta o ano enfocado – 1984 – e as condições envolvidas. O modo como Manu passeia pelas vidas de todos ao seu redor é comovente e interessante, pois desperta uma estranha curiosidade, sem nunca se envolver ou entregar em exagero. No entanto, quando isso finalmente acontece, parece que havia um preço a ser pago. E o modo como a AIDS e todas as suas complicações se impuseram na sociedade moderna ganha um viés clínico, quase calculista, mas muito bem contrabalanceado pela dor e sentimento de desamparo que provocou nos diretamente afetados – como todos os personagens aqui retratados.

“As Testemunhas” foi selecionado para o Festival de Berlim de 2007 e exibido pela primeira vez no Brasil durante o Festival do Rio do mesmo ano. Com mais de dois anos de atraso, finalmente chega até nós um trabalho maduro e inteligente em sua abordagem, porém sem nunca deixar de fora o lado humano que este mal ainda hoje pouco compreendido acarreta. Bastante elogiado pela crítica, foi eleito o Melhor Filme no Festival de Cinema Gay da República Checa, além de ter recebido quatro indicações ao César (o Oscar francês): melhor direção, ator (Blanc), revelação masculina (Libéreau) e ator coajuvante (Bouajila), tendo sido premiado nesta última. Um reconhecimento apropriado, porém ainda tímido diante dos méritos que a obra carrega consigo. Mas talvez os ganhos apresentados não possam, mesmo, ser medidos em prêmios ou aplausos, e sim em como irá afetar o comportamento de cada um que estiver na platéia.

Les Témoins, França, 2007
De André Téchiné
Com Johan Libéreau, Michel Blanc, Emmanuelle Béart, Sami Bouajila, Julie Depardieu
www.imdb.com/title/tt0487273/

( nota 8 )


Sob o Sol da Califórnia

Por Robledo Milani

Comédia romântica é tudo igual. É só prestar atenção no esquema básico: os dois atores que aparecem no cartaz se encontram no começo do filme, decidem ficar juntos, mas logo um obstáculo surge separando-os, para em seguida ser superado e dar lugar ao aguardado final feliz. Mas de vez em quando essa equação é alterada em algum ou outro fator. E em “De Repente, Califórnia”, a diferença é anunciada de imediato: o casal protagonista é formado por dois homens. Se alguém, no mundo em que vivemos, ainda se choca com isso, então é melhor rever seus conceitos. Porque esta situação, cada vez mais comum, é apenas um reflexo da maturidade da nossa sociedade. E se é tão comum, qual o problema de vê-la refletida também nas artes? E o cinema, até por sua imensa popularidade, é um excelente meio para expô-la sem censuras e com bastante naturalidade. Exatamente como aqui é feito. Ponto para a produção!

Zach (o novato Trevor Wright, em performance nada afetada e muito realista) é um rapaz em crise. Ele vive com o pai bêbado, a irmã mais velha e com o filho desta, que é mais criado por ele próprio do que por ela. Trabalhando como cozinheiro numa lanchonete, tem como sonho cursar a faculdade e se tornar um artista plástico, devido a sua afinidade com o desenho. Mas e seus compromissos com aquela família que conta com ele como único pilar realmente estruturado entre eles? As coisas começam a mudar quando conhece Shaun (Brad Rowe, de “O Beijo Hollywoodiano de Billy”), irmão mais velho do seu melhor amigo. Um sentimento novo surge, algo que até então desconhecia. E aos poucos os dois vão se aproximando, até que acontece o primeiro beijo.

A partir do momento em que fica claro que há atração entre eles, tudo o que se pode esperar de uma situação dessas se sucede. Negação, afastamento, confronto, enfrentamento, aceitação. Zach, um adolescente que teve que amadurecer com muita velocidade, tem outro desafio pela frente – se aceitar exatamente como é. Mas a sorte dele é que para isso terá ao seu lado uma pessoa mais experiente, vivida e compreensiva, disposta a ajudá-lo, mostrando que o verdadeiro amor é mais do que sexo e curtição. E todas as dificuldades anteriores, que eram vividas apenas por um, agora passam a ser dos dois. Um time apaixonado e entregue um no outro. E é justamente nesta compreensão de tão confusos e estranhos sentimentos, que surgem sem pedir licença ou permissão, que “De Repente, Califórnia” se destaca, confirmando-se como uma história não apenas direcionada a um grupo específico, mas a qualquer espectador mais sensível.

“De Repente, Califórnia” foi escrito e dirigido por Jonah Markowitz, em sua estreia como realizador. Antes disso havia trabalhado no departamento de arte de filmes tão diferentes quanto “Casa de Areia e Névoa” (2003), “Jogos Mortais” (2004), “Entrando Numa Fria Maior Ainda” (2004), “De Repente é Amor” (2005), “Alpha Dog” (2006) e “Rocky Balboa” (2006). Esta variada experiência se reflete no cuidado em detalhes deste seu primeiro longa-metragem, seja pela bela fotografia, pelos cenários primorosamente escolhidos e pela boa ambientação dos personagens. Mas há mais, e esta trama simples e aparentemente banal só enriquece pela sinceridade dos sentimentos abordados e pelas soluções que, apesar de convencionais, ainda conseguem emocionar.

Se este é o tipo de filme que um público maior ainda tem que descobrir, a crítica especializada já deu o seu aval. “De Repente, Califórnia” foi premiado em diversos festivais de cinema com temática gay & lésbica, com destaque para o L.A. Outfest, o GLAAD Media Awards, em Dallas, Tampa, Seattle e na Filadélfia, entre outros lugares. Uma bonita e comovente história de amor, que foge dos chavões mais óbvios com elegância e discrição, sem nunca se assustar com as bandeiras que defende. Um enredo universal, que felizmente aqui é abordado com delicadeza, inteligência e bom humor.

Shelter, EUA, 2007
De Jonah Markowitz
Com Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth, Katie Walder, Matt Bushnell, Ross Thomas
www.heretv.com/sheltermovie/

(nota 7,5)


O choque de “Brüno”

Por Robledo Milani

Muito se falou a respeito de “Brüno”, o novo trabalho de Sacha Baron Cohen, o mesmo homem por trás do absurdo “Borat”, de 2006. Este novo filme foi acusado de ser racista, inverossímil, gratuito, ridículo, abusivo, ousado, ofensivo, polêmico, vergonhoso, impróprio, debochado. E estão todos certos, porém incompletos. Afinal, é tudo isso e muito mais! Novamente sob direção de Larry Charles (que também esteve por trás de séries como “Seinfeld”, “Mad About You”, “Entourage” e “Curb Your Enthusiasm”), este é um legítimo “mockumentário”, ou seja, um falso documentário que acaba revelando muito mais verdades do que seus similares aparentemente honestos. E, driblando as regras do jogo – ou melhor ainda, usando-as a seu favor – Cohen conseguiu fazer um dos retratos mais cruéis e íntimos da nossa sociedade no que diz respeito ao preconceito, racismo e intolerância. E o melhor de tudo? Utilizando o mais inconseqüente dos tipos como protagonista! Insólito e hilariamente propício.

Brüno, assim como Borat, é um personagem criado por Sacha Cohen no programa de humor que tinha na Inglaterra, algo mais ou menos nos moldes do nossoCasseta & Planeta – guardada as devidas proporções, é claro. Trata-se de um repórter assumidamente gay que apresenta um programa sobre moda da televisão austríaca – ele chega a afirmar, em determinado momento, que é o segundo maior ícone a sair da Áustria, após Hitler! Como se pode perceber, o rapaz pode ser acusado de tudo, menos de temer controvérsias. E isso ele provoca inúmeras, do início ao fim. Após uma desastrosa participação na Fashion Week de Milão, é expulso e perde o próprio show. Sem ter para onde ir, decide se mudar para Los Angeles e virar celebridade. Como? Primeiro atuando, depois entrevistando outras estrelas, e até se engajando em causas sociais. Sempre sem a menor noção do impacto que causa ao passar. Mas sempre registrando tudo com uma câmera invasiva e pra lá de indiscreta. Felizmente!

O mais espantoso de “Brüno” é que são poucos os que tinham consciência de que se tratava de um filme de aparente ficção em desenvolvimento. Cohen, Gustaf Hammarsten (um Jeff Daniels sueco) e outros dois ou três é que estavam realmente atuando – todos os demais são registrados agindo naturalmente, sem perceber no que estão envolvidos. E, dessa forma, acabam revelando muito mais do que obviamente gostariam – e entregando justamente o que os realizadores buscavam, uma verdade sem disfarces ou máscaras. Os pais que prometem emagrecer bebês apenas para participar de campanhas publicitárias, o pastor que acredita piamente ser possível acabar com a homossexualidade de um homem, o médium que jura estar se comunicando com alguém supostamente falecido – e que de fato está bem vivo! – a plateia ofendida de um programa de auditório e até participantes de um swing entre casais, são todos desnudados sem cerimônia ou piedade, confrontando o público com algo tão ou mais chocante do que a figura daquele que nos conduz nesta jornada.

“Brüno” provoca, incomoda e choca, mas, acima de tudo, faz pensar. Aquele na audiência que conseguir ir além do espanto inicial irá se deparar com algo brutalmente corajoso, revelando um foco muito mais apurado do que aquele exercitado em “Borat”, por exemplo. E, ao contrário de Michael Moore (com quem é constantemente comparado), Cohen faz proveito de si mesmo para comprovar suas teorias, deixando que imagens e situações provocadas quase que ao acaso falem por si só, sem grandes explicações. E, se após tudo isso, ainda restarem dúvidas, o testemunho final explicitado através das participações de algumas das maiores estrelas da música mundial – Bono, Chris Martin, Slash, Sting, Snoop Dogg e até Elton John! – deixa bem claro que a mensagem é pertinente. O importante é estar atento e saber do que está se rindo.

Brüno, EUA, 2009
De Larry Charles
Com Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale, Josh Meyers, Paula Abdul, Harrison Ford, Bono, Chris Martin, Elton John, Slash, Snopp Dogg, Sting

www.thebrunomovie.com

(nota 9)


A Voz da Igualdade

Por Robledo Milani

É particularmente difícil tecer uma crítica à “Milk – A Voz da Igualdade”. E isso se deve ao fato deste ser um filme absolutamente perfeito! Realizado no momento certo, pelos artistas ideais e tratando de um tema mais do que pertinente, com um enfoque adequado e sem concessões, é um caso raro em que a soma dos elementos reunidos conseguiu criar algo ainda mais emblemático. Indicado em 8 categorias do Oscar 2009, inclusive nas principais, como Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante e Roteiro Original, provavelmente não irá receber todo o reconhecimento que merece. Mas isso não será problema – o verdadeiro impacto que um longa como esse provoca só pode ser percebido em sua totalidade na expressão que deixa e no sentimento que provoca em cada um dos seus espectadores.

Apesar do título, não está se falando aqui de leite, e sim da vida e dos feitos realizados por Harvey Milk, um homem que chegou aos 40 anos sem ter feito nada de muito importante, mas que, ao falecer, pouco menos de uma década depois, deixou um legado que até hoje repercute. Milk foi nada menos do que o primeiro homossexual assumido a ser eleito a um cargo político nos Estados Unidos – e, provavelmente, em todo o mundo! Sua intenção era simples: mudar o mundo da porta de sua casa. E o que fez foi realmente impressionante.

Ao conhecer Scott, um rapaz uns 15 anos mais novo, Harvey recebeu a inspiração que há muito ansiava e decidiu mudar: largou o emprego que o entediava, abandonou Nova York e seguiu para São Francisco ao lado da nova paixão. Lá, uma vez estabelecido com uma pequena lojinha de revelações fotográficas na Rua Castro, não encontrou um ambiente tão receptivo quanto imaginava. Mas, ao invés de se esconder, fez o contrário: saiu do “armário” com todas as forças e colocou a boca no mundo. E para se fazer ouvir criou barulho do modo certo – candidatando-se ao cargo de supervisor municipal, algo como um vereador. Assim, ele queria ser alguém no governo que iria se importar com sua causa e com a dos seus iguais. Finalmente alguém que ouviria o que esta minoria tem a dizer e que não poderia mais ficar calada.

Só que os movimentos de Milk foram ouvidos muito mais longe do que ele poderia ter esperado a princípio. E se sua jornada política não foi das mais fáceis, ao menos nunca desistiu – e nem os seus companheiros. Só que uma pedra aparentemente inofensiva se meteu no seu caminho – um outro colega, também supervisor novato, o religioso Dan White. E foi este homem que, motivado mais pela inveja e insegurança do que pelo preconceito ou discriminação, que terminou por assassiná-lo, ao lado do prefeito da cidade, meros 11 meses após ambos terem tomado posse de seus mandatos. Milk teve pouco tempo para fazer o que pretendia. Mas as mensagens que deixou e a repercussão dos atos que conseguiu executar não só atingiram seus objetivos como também marcaram toda uma geração.

“Milk – A Voz da Igualdade” não é só bem sucedido em mostrar a verdadeira face deste homem singular como também é um impressionante relato político. A trajetória desta personalidade é observada com muito equilíbrio entre o distanciamento que os fatos exigem e a aproximação que as emoções pedem. Escrito pelo jovem Dustin Lance Black, este texto é sábio em não cair nos clichês mais óbvios – como a suspeita de uma conspiração pela sua morte ou em endeusá-lo, isentando-o de falhas e defeitos – alternando momentos íntimos e conflitos pessoais com posições ousadas e reveladoras.

Outros méritos podem ser identificados por todos os lados. A direção de Gus van Sant (“Garotos de Programa, “Elefante” e “Gênio Indomável”) é sóbria e respeitosa, ajustada ao que quer contar sem resvalar no melodramático. O elenco de coadjuvante, que vai de Josh Brolin (“Onde os Fracos Não Tem Vez”) à Emile Hirsh (“Speed Racer”), passando por um exagerado Diego Luna (“E Sua Mãe Também”) e um carismático James Franco (“Homem-Aranha”), oferece o suporte ideal à uma das performances mais intensas e impressionantes do ano: Sean Penn, que, no papel principal, é protagonista de uma verdadeira transformação. Ele não interpreta Harvey Milk, simplesmente. Ele o vive com toda a vontade e força que um papel como este pode exigir. E o faz com tanta propriedade e direito que é quase impossível reconhecê-lo. Assim como Daniel Day-Lewis (“Sangue Negro”) no ano passado, é dono da interpretação mais estonteante do ano!

Comovente, perturbador, necessário, honesto. São poucas as palavras que fazem jus a uma obra como “Milk – A Voz da Igualdade”. Sua real relevância só poderá ser sentida daqui a alguns anos, repetindo um processo semelhante àquele visto com “O Segredo de Brokeback Mountain” – você consegue lembrar quem levou o Oscar daquele ano no lugar do romance dos caubóis gays? Militante sem ser irresponsável, justo sem ser enfadonho, abrangente sem ser irrelevante, este é um filme cujos efeitos merecem ser observados com cuidado. Talvez o que é dito aqui não lhe atinja hoje ou amanhã, mas aguarde, pois o discurso aqui é universal e um dia fará sentido não só a um ou dois, mas a todos por inteiro.

Milk, EUA, 2008
De Gus van Sant
Com Sean Penn, James Franco, Josh Brolin, Emile Hirsh, Diego Luna, Alison Pill, Victor Garber, Dennis O’Hare, Joseph Cross, Lucas Grabeel
www.filminfocus.com/focusfeatures/film/milk/

(nota 10)


O Casamento de Adam Sandler e Kevin James

Por Robledo Milani

“Eu Os Declaro Marido E… Larry!” tinha tudo para ser o filme mais homofóbico e preconceituoso do ano. Afinal, a trama não é das mais “iluminadas”. Senão, veja bem: dois bombeiros – uma das profissões que mais “povoam” o imaginário gay – decidem se casar, apesar de serem heterossexuais, apenas para que um deles consiga benefícios do governo. Como são vítimas de suspeita, precisam fingir que são homossexuais apaixonados, abusando de todos os clichês e estereótipos do gênero. Sim, está tudo lá, por mais previsível e bizarro que possa parecer. Mas, mesmo assim, o resultado não é dos piores, e no final o que acaba prevalecendo é a mensagem de tolerância e respeito, uma discussão sempre saudável de ser levantada.

O maior medo nem era o tema em si, mas nas mãos de quem ele estava depositado. Afinal Adam Sandler – assim como Jim Carrey ou Will Farrell, por exemplo – pode até ser um bom ator em projetos “sérios” (como no surpreendente “Embriagado De Amor”), mas o humor que emprega nas comédias é, via de regra, escrachado, pastelão e ofensivo. Este mesmo tom também se faz presente aqui, mas de modo muito mais leve, e ainda assim dentro de um propósito, visando a transformação dos protagonistas.

Sandler faz o machão conquistador que teve sua vida salva em trabalho pelo colega e por isso acaba aceitando o pedido maluco. Kevin James (“Hitch – Conselheiro Amoroso”) é viúvo e com duas crianças para criar. Como não está conseguindo incluir os filhos no plano de saúde, descobre que a maneira mais fácil para que isso aconteça é se casando novamente – e daí a idéia de chamar o amigo. Já a estonteante Jessica Biel (“O Ilusionista”) é a advogada chamada para ajudá-los na defesa, ao mesmo tempo que, mesmo sem saber, estará atrapalhando os planos dos dois, já que vira objeto de desejo do mais assanhado. Aos poucos o falso casal gay vai se envolvendo no mundo gls, e neste processo se vê – e juntamente o espectador – superando as falsas idéias pré-concebidas, descobrindo uma nova realidade e adquirindo uma sensibilidade até então insuspeita.

Se Dennis Dugan provavelmente nunca será um diretor de renome (é responsável por filmes como “O Paizão” e “Os Esquenta-Bancos”) e os dois protagonistas não inspiram muito respeito, há três outros nomes que nos fazem repensar qualquer opinião apressada sobre “Eu Os Declaro Marido E… Larry!”. Primeiro é o do roteirista Alexander Payne, vencedor do Oscar por “Sideways – Entre Umas E Outras” e diretor de obras elogiadas como “As Confissões De Schmidt” e “Eleição”. Ele é o principal crédito por trás do enredo do filme, tendo escrito a maioria dos diálogos e o argumento inicial. Isso indica a natureza da trama, que mesmo coberta por piadas rápidas e visuais, é dotada de uma profundidade razoável. E por fim tem-se a dupla Richard Chamberlain (ator de “Pássaros Feridos”) e Lance Bass (cantor do grupo N’Sync), duas celebridades que há pouco se assumiram como homossexuais e atualmente são ativistas gls. Suas participações são pequenas, mas elas certamente não teriam se envolvido neste projeto caso considerassem ofensivo e contrário a uma causa que tanto defendem.

E, acima de tudo, é importante ter algo em mente: “Eu Os Declaro Marido E… Larry!” é uma comédia feita para grandes públicos. Assim sendo, é até louvável perceber como consegue escapar da superficialidade que impera neste gênero, mesmo que atingindo suas intenções originais. Tanto que somou mais de US$ 117 milhões somente nas bilheterias norte-americanas. E se o sucesso popular estiver acompanhado de uma lampejo de mensagem contra a discriminação e a favor das diferenças, já é ótimo. Mesmo que seja com a cara do Adam Sandler à frente do elenco!

euosdeclaroI Now Pronounce You Chuck and Larry, EUA, 2007
De Dennis Dugan
Com Adam Sandler, Kevin James, Jessica Biel, Dan Aykroyd, Ving Rhames, Steve Buscemi, Richard Chamberlain, Lance Bass
www.chuckandlarry.com

(nota 6)


Funeral Cheio de Surpresas

Por Robledo Milani

Frank Oz já tem garantido seu espaço na memória de todo bom cinéfilo pelo seu desempenho como um dos personagens mais marcantes do cinema hollywoodiano: é dele a voz de Yoda, o sábio mestre jedi de frases invertidas da saga “Star Wars”. Mas além de dublador (nos seus créditos aparecem participações em filmes como “Zathura” e “Monstros S.A.” e em séries como “Vila Sésamo” e “Os Muppets”), Oz é um cineasta de extenso currículo, responsável por sucessos como “Nosso Querido Bob” e “Os Picaretas” e fracassos como “A Cartada Final” e “Mulheres Perfeitas”. E depois desse último desastre, que quase acabou com a carreira de Nicole Kidman, decidiu se refugiar na Inglaterra para dirigir “Morte no Funeral”, uma legítima comédia britânica de baixo orçamento, sem grandes astros, porém com um humor muito mais corrosivo e sarcástico, mas, ainda, contando com um previsível final feliz, mesmo que às avessas. E ele até que se sai bem!

Após a morte do pai, Daniel (Matthew MacFadyen, de “Orgulho & Preconceito”) tem como principal preocupação realizar um serviço fúnebre à altura. Mas ele não tem somente isso em mente: há o que fazer com a mãe, os anseios da esposa que quer se mudar e o irmão (Rupert Graves, de “V de Vingança”), famoso romancista, que está vindo dos Estados Unidos para a ocasião. E, claro, em receber bem todos os parentes que também devem marcar presença para um último adeus.

Entre estes está a prima decidida em se casar com o namorado, mesmo contra a vontade do pai. E, para acabar com o nervosismo do rapaz, que irá enfrentar o futuro sogro, ela lhe dá uns tranquilizantes pegos ao acaso na casa do irmão, que estuda farmácia. O que ela não sabe é que aqueles comprimidos não são calmantes, e sim ecstasy. Com isso dá pra se ter uma idéia do que o coitado irá aprontar durante a cerimônia, de alucinações sobre sons vindos de dentro do caixão até terminar completamente nu desfilando pelo telhado da casa!

Mas a maior confusão estará representada por um ilustre desconhecido – um anão (Peter Dinklage, de “O Agente da Estação”). E ele está ali por um motivo que provocará choque e surpresa: ele era amante do falecido! Portado de fotos que comprovam a relação homossexual paterna que ninguém desconfiava, ele exige fazer parte daquela união familiar – caso contrário seu silêncio até poderia ser providenciado, mas a um alto preço!

Confusões, desentendimentos, trapalhadas, enganos e outros previsíveis clichês do gênero “reencontro de família” estão presentes. O que fará o diferencial é a forma impiedosa como eles se apresentam: praticamente ninguém chegará ao fim desta reunião ileso, sem que sua honra – ou mesmo crença – seja abalada. Com um elenco bastante coeso e com um bom timing para este tipo de comédia, um roteiro bem estruturado e sem vergonha de usar suas próprias obviedades a seu favor, Frank Oz consegue voltar a um gênero que domina com precisão (é dele também o ótimo – e superior – “Será Que Ele É?”), confrontando preconceitos e verdades absolutas com graça e ironia. E o resultado, apesar de pouco memorável, acaba sendo melhor do que se poderia esperar.

Death at a Funeral, EUA/Reino Unido/Alemanha/Holanda, 2007
De Frank Oz
Com Matthew MacFadyen, Keeley Hawes, Rupert Graves, Peter Vaughan, Peter Dinklage, Alan Tudyk, Andy Nyman
www.imdb.com/title/tt0795368/

(nota 7)


Loucos de Amor

Por Robledo Milani

Como simplesmente não amar “C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor”? Este, além de ser uma das produções mais premiadas da história do cinema canadense, é também uma emocionante mensagem de amor incondicional entre pais e filhos, irmãos e, acima de tudo, seres humanos. O amor em família, a descoberta de nossas identidades e a luta contra o preconceito, seja ele sexual, social ou religioso. Um libelo contra a intolerância e a ignorância, levada às telas numa obra comovente e muito bem realizada. Sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes dos últimos tempos (a se lamentar, apenas, a demora do filme em ser lançado no Brasil, em 2007, apesar de ter sido produzido dois anos antes!).

O diretor e roteirista Jean-Marc Vallée fez do propósito de levar “C.R.A.Z.Y.” às telas um objetivo pessoal, que lhe custou cerca de dez anos de investimentos, pesquisas, releituras do roteiro, filmagens e produção. E o resultado não poderia ser melhor, justificando todo o esforço envolvido. A trama nos apresenta uma família com cinco filhos homens, cada um batizado com um nome cuja inicial nos leva ao título do filme e também de uma das mais famosas canções de Patsy Cline, cantora endeusada pelo pai dos rapazes. Christian, Raymond, Antoine e Yvan são, na verdade, coadjuvantes, enquanto que acompanhamos esta vida atráves dos olhos e sentimentos de Zac, o quarto filho. Enquanto os demais se encaixam mais facilmente em estereótipos – o vagabundo, o esportivo, o nerd e o preguiçoso – Zac é o rebelde, o inovador, o contestador, o inquieto, o que entrará em conflito com o resto da família, e para evitar a separação irá sufocar seus próprios questionamentos de sexualidade, religiosidade e humanidade, até não mais suportar.

O mundo que enxergamos através de Zac é repleto de contradições, e justamente por isso é tão verdadeiro. Em plenos anos 70, em meio à liberação dos costumes e de repressões ideológicas, ele luta bravamente para tentar se encaixar num modelo pré-estabelecido, e assim garantir seu lugar naquele universo familiar. Isso, claro, até perceber que no final o sangue sempre acaba falando mais alto. E esta é a idéia que “C.R.A.Z.Y.” tenta levar ao seu espectador: quando o amor é verdadeiro e real, deve ser maior do que tudo, não importando quão limitadas sejam nossas referências e suposições.

Vencedor de mais de 35 prêmios internacionais, “C.R.A.Z.Y.” foi o representante oficial para concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro (é todo falado em francês) em 2005. Acabou não conseguindo a vaga, o que não faz a menor diferença. Tocante e mágico, místico e sensível, sexy e engraçado, singelo e abrangente, este é um filme que ultrapassa questões como homossexualidade, tradição, fraternidade e discriminação. É, sim, um longa que fala do sentimento mais nobre de todos, o puro amor, e somente por isso merece ser conhecido por todos. Por mais loucos que sejamos. Afinal, como já diz o ditado, ninguém de perto é muito normal!

C.R.A.Z.Y., Canadá, 2005
De Jean-Marc Vallée
Com Marc-André Grondin, Michel Côté, Danielle Proulx, Émile Vallée, Johanne Lebrun, Francis Ducharme
www.cirruscommunications.ca/index.php?p=03_200&l=en&cID=2&id=1

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