Música
Por que a promessa de Mika não vingou
Por Rafael Maia

Quando Mika surgiu, deu uma sacudida na parada das músicas mais tocadas e dos singles mais vendidos do Reino Unido. Ele era diferente e refrescante. Em janeiro de 2007, emplacou ‘Grace Kelly’ no topo das mais pedidas e, de lambuja, colocou o ótimo álbum de estreia “Life in Cartoon Motion” no primeiro lugar da Inglaterra.
Daí a ele se tornar a grande promessa para aquele ano não foram dois passos. Choveram comparações que iam de Freddy Mercury a Prince, passando por Elton John e pelo muito icônico David Bowie. Até prêmio de revelação da principal premiação da música pop do Reino Unido, o Brit Awards, ele levou. Só que a expectativa, por assim dizer, não vingou. Pelo menos não como se esperava.
A verdade é que de novo o líbano-americano criado em Londres não tinha nada. Há pelo menos quatro anos ele tentava algum sucesso de público. Do álbum de estreia, a excelente ‘Relax, Take it Easy’ foi a primeira tentativa de um hit. A música, porém, fez um desempenho muito tímido nas paradas britânicas, figurando apenas na posição de número 18. Logo depois, numa história semelhante a que trouxe o recente sucesso do também britânico La Roux, a Universal Records encontrou nosso garoto e relançou o álbum. Dessa vez, com ‘Grace Kelly’ como carro-chefe. Aí começaram o sucesso e aquelas comparações oitentistas cheias de glam e glitter.
Só que elas, no entanto, fazem bem mais sentido com “The Boy Who Knew Too Much”, segundo trabalho de estúdio do moço, do que com o anterior. O sucesso do primeiro CD se dá justamente porque, embora o remontemos à atmosfera ‘Freddy Mercury meets David Bowie’, a comparação acaba por aí. Ela morre na praia, graças a deus. O “Life…” é, antes de qualquer outra coisa, um trabalho autoral, com uma marca de um artista que estava se divertindo ao recriar uma sonoridade que há muito não se ouvia. Ele é um trabalho sem medo, quase que pretensiosamente despretensioso. Cheio de referências, como não podia deixar de ser, mas essencialmente refrescante. E com letras brilhantes e inteligentes, como as de ‘Billy Brown’ e ‘Stuck in the middle’, só para citar duas.
Em “The Boy…”, a coisa fica um pouco diferente. A sonoridade não é nova. O momento já não é mais tão favorável, levando-se em conta uma cena britânica que está, a cada semana, mais dinâmica e mutável do que costumava ser. Aí aquela comparação se torna inevitável e, de certo modo, não benéfica. Das letras menos trabalhadas verbalmente e arranjos mais pomposos às cores exuberantes dos videoclipes, tudo ali remonta mais a esse espectro dos anos 80. O álbum, então, se esvai de personalidade no uso de uma superprodução que aparenta uma tentativa de contornar alguma possível crise de criatividade.
“Life in Cartoon Motion”, apesar das comparações, possui uma marca original do artista mais evidente do que o segundo CD. Nele, Mika parece muito mais preocupado em mostrar quem é para o público, com todas as influências e perspectivas pessoais, do que em tentar impor um estilo. E quando se faz isso baseando-se fortemente em algo que já foi feito, a coisa fica estranha.
O que acontece com “The Boy Who Knew Too Much” parece justamente o contrário. Aqui, o artista deixa de lado
a criatividade motora do primeiro trabalho e abre espaço para a necessidade de impor uma maneira de fazer música. A qualidade da produção do segundo álbum é impecável. A construção de cada música como parte de uma obra maior é muito mais pensada aqui do que o que se pode ouvir em “Life in Cartoon Motion”, por exemplo. Mas a questão extrapola este ponto.
Em “The Boy Who Knew Too Much”, o artista soube demais como fazer um álbum muito bem construído, sem furos e redondo. O espaço para sonoridades novas e experimentações não usuais, entretanto, foi sufocado pelo excesso da técnica. Que o segundo álbum é um trabalho formidável, disso não há dúvida. Que o segundo álbum é um produto que combina bom gosto e ponderação musical, isso se pode perceber ao escutá-lo com atenção. Mas talvez o esforço do menino Mika em se tornar um artista sólido tenha minado sua criatividade. O que ouvimos no novo trabalho é excelente, mas que, nem de longe, se compara ao ‘amadorismo’ gostoso, refrescante e necessário à criatividade que “Life in Cartoon Motion” apresentou ao mundo. Se antes Mika lançou a promessa para o mundo da música, Agora ele a matou pela ironia do desejo de se tornar um bom artista.
Ponderações e Inflamações do Mundo Pop
Por Rafael Maia

Não existe outro espaço dentro da música que sofra tantas reviravoltas em tão pouco tempo com o do Pop. Acusado de reproduzir mesmices, ele parece carecer, na verdade, de uma análise capaz de encarar este tipo de arte como sendo séria. Dizer que a ousadia e o novo não encontram lugar dentro de um mundo preocupado em reproduzir ‘o mesmo’ guiado pela lógica mercantilista não é melhor caminho.
Nos Estados Unidos, por exemplo, nem Shakira, nem Madonna, nem Mariah Carey fazem atualmente as músicas mais ouvidas, aquela que é pop de popular mesmo. Apesar disso, embora Shakira tenha trabalhado com o Timbaland, produtor batido que acaba de lançar seu segundo álbum de estúdio e single novo com participação da cantora francesa que ninguém conhece ‘So shy’ (essa, sim, com sonoridade nova, devo dizer), o ‘She Wolf’ é bem diferente de ‘Oral Fixation’ e ‘Laundry Service’, só para citar os trabalhos lançados em inglês. Existe evolução evidente no novo álbum, tanto no que tange às letras quanto ao que se refere às próprias produções, que têm um ar dance bem forte.
Em relação à Mariah, tenho uma ponderação. Discordo de quem afirma que ‘Memoirs of an Imperfect Angel’ remete, por causa das baladas, ao início da carreira. ‘Obsessed’ está aí para dizer o contrário. ‘Memoirs’, na verdade, parece uma tentativa de resgatar o sucesso de público e de crítica do aclamado ‘The Emancipation of Mimi’ (2005), um CD que carregou baladas de enorme sucesso mundial, como ‘We Belong Together’ e ‘Don’t Forget About Us’. Vale lembrar que, às vésperas do lançamento de seu filme “Glitter”, em 2001, e do final do casamento com o Motolla, que aconteceu um pouco antes, a carreira de Mariah estava destruída. O lançamento de 2005 não só a ressuscitou como deu um boost absurdo na imagem dela. Quando ‘E=MC²’ chegou às lojas, Mariah veio com a ‘desculpa’ de que o CD tinha mais hip-hop porque era ‘a sobremesa do Emancipation of Mimi’. O álbum, que de doce não tinha nada, nem sequer se equiparou ao sucesso do anterior. Este contexto, para mim, explica bem melhor as baladas de ‘Memoirs of an Imperfect Angel’.
Falar de Rihanna, hoje, é complicado. A comparação do controverso ‘Rated R’ com ‘Good Girl Gone Bad’ é muito forçada. GGGB possui hits mundiais estrondosos. ‘Rated R’ é um álbum sombrio, fruto de um trabalho da artista sobre o caso de agressão de Chris Brown. ‘Rated R’, talvez, seja o trabalho pop ‘mais difícil’ de ser interpretado e absorvido por amantes de ‘Umbrella’, ‘Don’t Stop the Music’, ‘Rehab’ e ‘Shut up and Drive’. A produção do novo CD é obscura e as letras, não raras vezes, são amargas. A primeira música de trabalho, por exemplo, ‘Russian Roulette’, é sobre uma menina que se mata! A música chegou a até ser acusada de poder influenciar garotas indefesas a quererem se suicidar. De ‘you can stand under my umbrella’ para ‘so pull the trigger’, há um longo e tortuoso caminho. Sem contar passagens como ‘It’s too late to think of the value of my life’.

O que falar de Lady GaGa? Dizer que a moça busca influências dos anos 80 e anos 90 é redundante. Redundante porque é muito abrangente e não quer dizer absolutamente nada. Qualquer músico que existe hoje com certeza tem alguma influência de alguma coisa que aconteceu nos últimos 30 anos na música. É aqui que acho que o ‘a regra do pop é não ousar’ cai por terra. Das 4 cantoras citadas, ela é a que mais faz sucesso. É a que mais vende também. É a mais pop. E é a que mais ousa. Além do que falar de GaGa sem falar da imagem dela é um pecado! O lance da moça, mais do que as músicas para dançar, são as letras kind of cool, como ‘i wanna take a ride on you disco stick’ ou ‘i’m a free bitch baby’, e as apresentações bizarras, com sangue, gente pendurada, peitos que cospem fogo e roupas que quase beiram à bagaceirice de tanto não fazerem sentido. Recentemente, GaGa declarou que ela não é modelo, não é atriz e que não precisa ser bonita e elegante. Legal, né?
Agora, na Europa, a situação fica ainda mais interessante. O pop inglês, que mais tarde vende bastante no mundo, se renova muito constantemente. Tivemos Blur, Oasis e Arctic Monkeys, todos passados. No Charts UK feito pela Radio 1 da BBC, o que mais vende na terra da rainha hoje é o pessoal do ‘irmão’ inglês do American Idol, X-Factor. A ex-x-factor Leona Lewis, que alcançou estrondoso sucesso mundial de vendas com ‘Bleeding Love’, sempre está entre os dez mais tocados. Atualmente, Alexandra Burke, Laura White, Cheryl Cole e a boyband JLS, todos também do mesmo reality show, ‘topeiam’ as paradas por lá.
Há também a cena do pop inglês de meninas com letras ousadinhas e som eletrônico, que se iniciou mais ou menos há uns 7 anos com a Jem e tem trazido nomes como Lily Allen, Kate Nash, Katie White (do Ting Tings) e Florence Welch, só para citar alguns. Shakira, por exemplo, estreou depois de uma mega divulgação só na posição #26, muito baixo. Sem falar da cena synthpop de La Roux, Bat for Lashes, FrankMusik, Ellie Goulding, pessoal que tem levado os prêmios ‘pop’ e ‘indie’ das maiores revistas inglesas, como Mobo e NME magazine.
Por fim, como falar de música pop sem falar de Black Eyed Peas? O grupo, e a Fergie, é claro, tomou de assalto totalmente as paradas do mundo
inteiro com o último álbum. Os caras ficaram umas 20 semanas nos EUA em #1 com ‘I Gotta Feeling’ e ‘Boom Boom Pow’. Na Inglaterra, a mesmíssima coisa. E o novo single ‘Meet me Halfway’ está a caminho de repetir o sucesso das músicas anteriormente lançadas de ‘The E.N.D’.
O universo Pop tem disso. Por debaixo de uma superfície aparentemente fútil, há uma efervescência de produções que o mantém vivo e que, pela rapidez com que acontece, acaba passando sem que se perceba. O lance aqui é estar atento às mudanças e entender que, aqui, nem tudo é o que parece. Aquilo que hoje é hype, amanhã pode se tornar ultrapassado. Mesmo.
Fashion Rocks chega ao Brasil
Por Alexandre Macedo
Moda e música é uma fórmula que dá e dará certo, funciona e não é modismo. Estilistas precisam da música para dar movimento a sua coleção, quando as modelos dão o passo certo a cada look exibido pela passarela. Assim como é necessário ter o ritmo correto para a criação casar com a idéia do designer. Por outro lado temos os músicos, que sem a moda, sem o vestuário que os diferencia, precisam criar um estilo próprio quando estão no palco e acabam formando uma identidade visual como artista. Esse fator, muitas vezes, é essencial para o sucesso do mesmo com o seu público, comunicando, além da música, todo um life style. Inclusive hoje existem muitas bandas e artistas com stylists que coordenam a imagem e o figurino. História que se repete desde os anos 80, quando a rainha do punk, Vivianne Westwood, começou a vestir os Sex Pistols – na época ela era casada com o vocalista do grupo. Moda e música é um casamento, até que a morte os separe.
Indo ao encontro do que falo, aconteceu no último dia 24 de novembro, no Jockey Club do Rio de Janeiro, a primeira edição brasileira do Fashion Rocks, por aqui batizada de “Oi Fashion Rocks Brasil’’. O evento nasceu em Londres, com apoio do Príncipe Charles, e une música e moda. No Brasil, teve cunho beneficente revertido para a ONG Rio Solidário. Atrações internacionais com shows e desfiles de renomados estilistas da moda mundial deram o toque principal e especial.
Com mais de cinco edições realizadas pelo mundo, o Fashion Rocks é um sucesso nos Estados Unidos e na Europa. A lista de artistas que já se apresentaram em algumas de suas edições é extensa – Alicia Keys, Lily Allen, Whitney Houston e Chanel (Londres, em 2007); Bon Jovi, Blondie, Vivienne Westwood e Burberry (Mônaco, em 2005) – e impressiona. Após participar de uma concorrência envolvendo as cidades de Dubai, Xangai e Mumbai, o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar esta primeira edição fora do eixo Europa-EUA.
O patrocínio master foi da Oi, maior empresa brasileira de telecomunicações e que, entre outras iniciativas, foi pioneira no desenvolvimento de uma estratégia de divulgação que associa sua imagem a um estilo de vida. Com esta diretriz, a companhia investe em ações de marketing de entretenimento. A moda ao lado do esporte, da música e da cultura é um dos pilares da estratégia da companhia.
O styling do espetáculo apresentado no Brasil foi da inglesa Katie Grand, que coleciona roupas desde os 14 anos e usa muitas peças suas nas produções que faz. Ela também já trabalhou como diretora de estilo nas revistas “Dazed & Confused“, “The Face” e “Pop“, e agora é quem manda na “Love“, publicação que está em sua segunda edição (sai apenas duas vezes por ano). Além disso, a garota produz desfiles de grifes como Prada, Louis Vuitton, Miu Miu e Giles Deacon.
Dentre as atrações, estiveram nomes de destaque internacional. Puffy Daddy, que é vestido pela grife que cantou
– Versace – teve seu show aberto pela top model brasileira Isabeli Fontana. Na sequência, a banda novata Stop Play Moon fez a trilha de Alexandre Hercovicth – a vocalista é musa do estilista. Wanessa e Ja Rule, atrações muito aguardadas, se apresentaram para André Lima. Ciara cantou para Givenchy, enquanto que Estelle, que estourou com seu hit “American Boy”, se apresentou com a moda praia de Lenny. Grace Jones, bastante performática, trocou três vezes de chapéu e vestia um colant preto com uma capa que se mexia parecendo que estava ao vento, cantou e dançou para o desfile do queridinho das fashionistas, Marc Jacobs. Lino Vilaventura, último estilista nacional da noite, apresentou um mix de suas coleções na voz de Daniela Mercury. A dupla foi perfeita na brasilidade da voz de Daniela e no trabalho manual de Lino, uma de suas admiradas características.
Por fim, Mariah Carey encerrou os desfiles, vestindo um longo preto modelo séria, e os looks de Calvin Klein, pela direção criativa do brasileiro Francisco Costa. A noite fechou com chave de ouro ao som da bateria da Grande Rio, deixando um gostinho de quero mais. A próxima edição, em 2010, do Fashion Rocks, já foi confirmada pela atriz e modelo Fernanda Lima, que foi elogiada pela apresentação que fez de todo o evento.
O que há de NOVO no pop?
De Madonna a Mariah, Lady GaGa a Shakira, Britney a Rihanna. O último trimestre do ano é sempre recheado de lançamentos dos maiores nomes da música. Lançamento significa ‘músicas novas’, certo? No mundo pop, nem sempre.
Desde que a indústria fonográfica se afundou numa crise, acentuada pela pirataria e pela
popularização de programas de troca de arquivos como o Napster (alguém lembra dele?), o pessoal das gravadoras tem se desdobrado para fazer a gente ainda ter vontade de pagar por um CD. A saída tem sido apostar em fórmulas conhecidas, chamar produtores-garantia-de-sucesso-nas-rádios e até relançar músicas e discos que todo mundo já cansou de ouvir. Parece que a regra é não ousar.
Nesta temporada Britney Spears, Janet Jackson e Madonna resolveram compilar seus maiores hits. Para o disco ‘She Wolf’, Shakira convocou Timbaland e Pharrell Williams, que já trabalharam com Madonna, Britney, Deus e todo o mundo. Em ‘Rated R’ Rihanna dá continuidade ao multi-platinado ‘Good Girl Gone Bad’, de 2007. E Mariah Carey faz uma ode ao início de sua carreira em ‘Memoirs Of An Imperfect Angel’, num disco com muito mais baladas e menos hip hop.
Lady GaGa, que de boba não tem nada, aproveitou o início de uma turnê mundial para dar
sobrevida ao seu álbum de estreia. Adicione duas opções de capa, 8 músicas novas e chame Beyoncé para um dueto: está pronto ‘The Fame Monster’ – a edição de colecionador vem até com uma mecha de cabelo (!) da cantora. Engana-se quem pensa que este é só mais um relançamento oportunista. ‘Monster’ contém sim ‘Poker Face’, ‘Paparazzi’ e todos os hits que a gente dançou no último ano. Mas o melhor fica por conta das inéditas, que formam quase um novo álbum. Todo o electro-pop, os sintetizadores e as influências dos anos 80 e 90 estão lá, sem soar como velharia. Sem falar no vídeo do single “Bad Romance”, que já é um dos melhores do ano. Da sonoridade ao visual, Lady GaGa aponta para o futuro.
E, em tempos de mais do mesmo, o elenco do seriado musical ‘Glee’ (transmitido no Brasil pelo canal FOX) tem dado conta do recado. Em cada episódio eles apresentam releituras de canções das mais variadas possíveis, incluindo clássicos de Cyndi Lauper, Queen, The Police, Kanye West, John Lennon, Lily Allen… O sucesso da série é tão grande lá fora que eles chegaram ao topo da lista de singles mais baixados do iTunes nos EUA. Até Madonna já autorizou o uso de suas músicas no programa. Afinal, quem não gosta de ouvir uma versão diferente daquele som que foi a trilha sonora de seus verões passados?

