Ponderações e Inflamações do Mundo Pop

Não existe outro espaço dentro da música que sofra tantas reviravoltas em tão pouco tempo com o do Pop. Acusado de reproduzir mesmices, ele parece carecer, na verdade, de uma análise capaz de encarar este tipo de arte como sendo séria. Dizer que a ousadia e o novo não encontram lugar dentro de um mundo preocupado em reproduzir ‘o mesmo’ guiado pela lógica mercantilista não é melhor caminho.
Nos Estados Unidos, por exemplo, nem Shakira, nem Madonna, nem Mariah Carey fazem atualmente as músicas mais ouvidas, aquela que é pop de popular mesmo. Apesar disso, embora Shakira tenha trabalhado com o Timbaland, produtor batido que acaba de lançar seu segundo álbum de estúdio e single novo com participação da cantora francesa que ninguém conhece ‘So shy’ (essa, sim, com sonoridade nova, devo dizer), o ‘She Wolf’ é bem diferente de ‘Oral Fixation’ e ‘Laundry Service’, só para citar os trabalhos lançados em inglês. Existe evolução evidente no novo álbum, tanto no que tange às letras quanto ao que se refere às próprias produções, que têm um ar dance bem forte.
Em relação à Mariah, tenho uma ponderação. Discordo de quem afirma que ‘Memoirs of an Imperfect Angel’ remete, por causa das baladas, ao início da carreira. ‘Obsessed’ está aí para dizer o contrário. ‘Memoirs’, na verdade, parece uma tentativa de resgatar o sucesso de público e de crítica do aclamado ‘The Emancipation of Mimi’ (2005), um CD que carregou baladas de enorme sucesso mundial, como ‘We Belong Together’ e ‘Don’t Forget About Us’. Vale lembrar que, às vésperas do lançamento de seu filme “Glitter”, em 2001, e do final do casamento com o Motolla, que aconteceu um pouco antes, a carreira de Mariah estava destruída. O lançamento de 2005 não só a ressuscitou como deu um boost absurdo na imagem dela. Quando ‘E=MC²’ chegou às lojas, Mariah veio com a ‘desculpa’ de que o CD tinha mais hip-hop porque era ‘a sobremesa do Emancipation of Mimi’. O álbum, que de doce não tinha nada, nem sequer se equiparou ao sucesso do anterior. Este contexto, para mim, explica bem melhor as baladas de ‘Memoirs of an Imperfect Angel’.
Falar de Rihanna, hoje, é complicado. A comparação do controverso ‘Rated R’ com ‘Good Girl Gone Bad’ é muito forçada. GGGB possui hits mundiais estrondosos. ‘Rated R’ é um álbum sombrio, fruto de um trabalho da artista sobre o caso de agressão de Chris Brown. ‘Rated R’, talvez, seja o trabalho pop ‘mais difícil’ de ser interpretado e absorvido por amantes de ‘Umbrella’, ‘Don’t Stop the Music’, ‘Rehab’ e ‘Shut up and Drive’. A produção do novo CD é obscura e as letras, não raras vezes, são amargas. A primeira música de trabalho, por exemplo, ‘Russian Roulette’, é sobre uma menina que se mata! A música chegou a até ser acusada de poder influenciar garotas indefesas a quererem se suicidar. De ‘you can stand under my umbrella’ para ’so pull the trigger’, há um longo e tortuoso caminho. Sem contar passagens como ‘It’s too late to think of the value of my life’.

O que falar de Lady GaGa? Dizer que a moça busca influências dos anos 80 e anos 90 é redundante. Redundante porque é muito abrangente e não quer dizer absolutamente nada. Qualquer músico que existe hoje com certeza tem alguma influência de alguma coisa que aconteceu nos últimos 30 anos na música. É aqui que acho que o ‘a regra do pop é não ousar’ cai por terra. Das 4 cantoras citadas, ela é a que mais faz sucesso. É a que mais vende também. É a mais pop. E é a que mais ousa. Além do que falar de GaGa sem falar da imagem dela é um pecado! O lance da moça, mais do que as músicas para dançar, são as letras kind of cool, como ‘i wanna take a ride on you disco stick’ ou ‘i’m a free bitch baby’, e as apresentações bizarras, com sangue, gente pendurada, peitos que cospem fogo e roupas que quase beiram à bagaceirice de tanto não fazerem sentido. Recentemente, GaGa declarou que ela não é modelo, não é atriz e que não precisa ser bonita e elegante. Legal, né?
Agora, na Europa, a situação fica ainda mais interessante. O pop inglês, que mais tarde vende bastante no mundo, se renova muito constantemente. Tivemos Blur, Oasis e Arctic Monkeys, todos passados. No Charts UK feito pela Radio 1 da BBC, o que mais vende na terra da rainha hoje é o pessoal do ‘irmão’ inglês do American Idol, X-Factor. A ex-x-factor Leona Lewis, que alcançou estrondoso sucesso mundial de vendas com ‘Bleeding Love’, sempre está entre os dez mais tocados. Atualmente, Alexandra Burke, Laura White, Cheryl Cole e a boyband JLS, todos também do mesmo reality show, ‘topeiam’ as paradas por lá.
Há também a cena do pop inglês de meninas com letras ousadinhas e som eletrônico, que se iniciou mais ou menos há uns 7 anos com a Jem e tem trazido nomes como Lily Allen, Kate Nash, Katie White (do Ting Tings) e Florence Welch, só para citar alguns. Shakira, por exemplo, estreou depois de uma mega divulgação só na posição #26, muito baixo. Sem falar da cena synthpop de La Roux, Bat for Lashes, FrankMusik, Ellie Goulding, pessoal que tem levado os prêmios ‘pop’ e ‘indie’ das maiores revistas inglesas, como Mobo e NME magazine.
Por fim, como falar de música pop sem falar de Black Eyed Peas? O grupo, e a Fergie, é claro, tomou de assalto totalmente as paradas do mundo
inteiro com o último álbum. Os caras ficaram umas 20 semanas nos EUA em #1 com ‘I Gotta Feeling’ e ‘Boom Boom Pow’. Na Inglaterra, a mesmíssima coisa. E o novo single ‘Meet me Halfway’ está a caminho de repetir o sucesso das músicas anteriormente lançadas de ‘The E.N.D’.
O universo Pop tem disso. Por debaixo de uma superfície aparentemente fútil, há uma efervescência de produções que o mantém vivo e que, pela rapidez com que acontece, acaba passando sem que se perceba. O lance aqui é estar atento às mudanças e entender que, aqui, nem tudo é o que parece. Aquilo que hoje é hype, amanhã pode se tornar ultrapassado. Mesmo.
Rafael Maia Amante de Londres, do francês, do twitter e do Snoopy. Na TV, é viciado por séries e reality shows. No cinema, é apaixonado por Chritophe Honoré, Louis Garrel, Judi Dench e Cate Blanchett. Na música, é casado com rock inglês de garagem, mas tem uma queda séria por batidas do tipo La Roux, Bat For Lashes e Hot Chip. Na internet, ele encontra tudo isso. Otimista por necessidade, se vivesse em outra época da história da humanidade, ele não seria tão feliz.
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January 4, 2010 - 12:01 am
São raras às vezes que leio um artigo e concordo em grande parte.
O mundo Pop, infelizmente, é taxado de superficial, bobo, vazio… E PIOR, por pessoas que nem se dão o luxo de saber como ele funciona.
De fato, como você disse Rafael, olhando pela superfície, a música pop é simples. Mas basta mergulhar um pouquinho mais nas referências que ela usa e na sua própria história pra ver que ela é um reflexo e – ao mesmo tempo – vanguarda dos nossos tempos.
E viva ao Pop!