peixe

“Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus (!!!!)
Pelo amor de Deus…”

Ora, ora ! Por favor, perdoe a minha interrupção abrupta deste fluxo de puro lirismo metafísico, mas você não acha tudo isso uma puta de uma sacanagem? Esta malandragem do Divino que tudo o que mais apreciamos nessa vida ou mata, ou é proibido ou é destinado unicamente para o Seu próprio deleite e usufruto? Para mim, isso não passa de uma grande safadeza do Marmanjão. Coisa do capeta.

A começar pela mal-bem-dita carne e seus insuperáveis prazeres à mesa. E adjacências. Veja bem. Você acha realmente justo que aquilo que nos faz salivar em encadeamentos de gozos múltiplos e gloriosos ao devorarmos um suculento churrasco de vazio é exatamente aquilo que poderá mais tarde nos confinar prematuramente em um minúsculo imóvel na nada-gloriosa-cidade-dos-pés-juntos? Acha também incontestavelmente normal que a razão pela qual os nossos corações disparam de alegria incontida ao mordermos um maravilhoso magret de pato é exatamente a mesma razão pela qual essas irriquietas bombinhas escarlates poderão emperrar de repentina tristeza em uma manhã qualquer de domingo? Do you have any clue what I am talking about?

Pois é. A controvertidamente sedutora figurinha desse papinho todo aqui chama-se Mrs. G.o.r.d.u.r.a. Afinal, é pela gordura que um carneiro tem o seu estimado sabor de carneiro. É através da irresistível presença dela que um pato tem o seu delicioso gosto de pato, que um salmão é desejado como um salmão, que a chapada da Mimosa é identificada como um insubstituível assado de múúú e que (pasme!) o seu rechonchudo pneumaticozinho é tão sinceramente adorado pela sua com-probleminhas-visuais-mas-ultrapaixonada-parceirinha (melhor ser otimista, certo?). A tal ponto que se você, num ímpeto de doce rebeldia contra o Criador, fritasse um pedaço magro de filé de porco numa gordura de carneiro, nem o Cruz-Sacrificado-Cristo nem a Sua Azulíssima Mãe-à-Moda-Perla adivinhariam que aquilo, na verdade, não passa de um disfarçado naco de óinc-óinc. Os dois, provavelmente, se gabariam para as zelosas patrulhas de anjos e arcanjos que sobrevoam aqueles confins dos céus contando animadíssimos sobre as maravilhas do medalhão de mé-hé-hé-ééééé-mal-passado que acabaram de jantar e que fôra diligentemente preparado pela graças-aos-bons-deuses-humildemente-submissa-cozinheira-Criatura.

Uma grande “marotagem”, essa! A Deles, obviamente. Quer dizer que, para permitir-nos o prazer inigualável e inocente de desfrutar uma suculenta costelinha de porco assada, somos obrigados a injetar uma seringa de gordura mortífera nas nossas cândidas aortinhas? Ah é, é? Parece que não há outro jeito, não é mesmo? Ou isso ou a perversa abstinência-católico-apostólica-romana-cruzes-credo-jesus -por-misericórdia-me -chicoteie-eu-só-como-hóstia-e-alface-americanamém! Não seria essa última opção, de qualquer forma, a outra morte? E por sinal, a pior delas?

Pior!

Well, já que não há o que negociar sobre todas as coisas, voltemos ao estratégico da capo então …

“Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador.
Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
e esses vales são de Deus”

PELO AMOOOOOOOOOOR DE DEUS !!! Não vê que ISSO é pecado?
Putz! Que Paidrasto. Taaáááxi!! Aos infernos via Via Crúcis, por favor. Entra aí, Zizi. Vem comigo! Estou me coçando para conhecer o diabo!

***

PS: Quimera (do grego khimaira e do latim chimaera): monstro fabuloso formado de diferentes partes de animais.

***