Tudo Sobre Maria Clara Spinelli
No site oficial do filme “Quanto Dura o Amor?”, de Roberto Moreira, que estreou em São Paulo no dia 02 de outubro e segue sendo lançado pelo país (em Porto Alegre foi no dia 21 de novembro, em Brasília em 27/11 e no Rio de Janeiro somente em dezembro), a descrição da atriz Maria Clara Spinelli é a seguinte: “Integrou por quatro anos a Matisse Cia. de Dança, com a qual participou de vários festivais pelo país. Atuou no monólogo ‘O Ser Gritante’ (2004), baseado em textos de Clarice Lispector. Em 2008, foi convidada por Ivam Cabral (Os Satyros) para atuar no monólogo ‘Matéria dos Sonhos’, de Cláudia Pucci. ‘Quanto Dura o Amor?’ é sua estréia no cinema”. Mas Maria Clara é muito mais do que isso.
Como eu e ela temos um grande e querido amigo em comum, meu contato com Maria Clara começou meses atrás, ainda durante os preparativos de lançamento do filme. Fomos nos aproximando, trocando e-mails, e aos poucos fui descobrindo mais a respeito dela. E quando pensamos em lançar o YGUAL, o nome dela veio imediatamente à mente para nossa primeira entrevista. Porque Maria Clara Spinelli é atitude, coragem e força. E isso nós admiramos.
“Como surgiu o convite para atuar em ‘Quanto Dura o Amor?’?”
Eu faço teatro há mais de 10 anos, mas no interior. Sou de Assis, trabalho como funcionária pública, mas sempre ligada na minha carreira de atriz, estudando. O início da minha carreira foi com dança-teatro, e não somente como intérprete. Eu ficava indo e vindo de São Paulo – aliás, algo que faço até hoje, porque continuo morando em Assis. Mas daí uma amiga me falou de um teste para cinema, com uma produtora chamada Coração da Selva. Fiquei ressabiada, então fui procurar na internet. E só vi coisas boas! O primeiro teste foi com a Paula Pretta, atriz e produtora de elenco, e o diretor Roberto Moreira, isso em setembro de 2007. Depois de um mês, mais ou menos, me chamaram de novo, agora com o Gustavo Machado, que seria meu par no filme. Tudo se definiu ali, naquele momento criamos uma química. Se ele não fosse o Gil, eu não seria a Suzana.
“Como foi o desafio de estrear no cinema com um personagem tão polêmico?”
Apesar de conhecer e admirar o cinema brasileiro, nunca tinha feito nada até esse momento. E quando fiquei a par do meu papel, é claro que tive medo. Mas algumas pessoas foram fundamentais. Primeiro foi a Silvia Lourenço, pois morei três meses com ela e trocamos muito neste período. Depois o Sergio Penna, preparador de elenco, que me ajudou a encontrar o personagem e me ensinou como atuar no cinema. Por fim, o próprio Roberto Moreira, que é um diretor fantástico. O estilo dele é muito livre, não gosta que o ator decore o texto, aposta muito no improviso. Foi muito difícil, mas como o volume de cenas em que eu apareço era grande, não dava para hesitar. Tinha que ir e fazer. Outra coisa legal é que o Roberto mantém algo que vem do teatro, que é a preferência pela continuidade, a linearidade da emoção do ator. Assim é muito melhor para criar a carga emocional do personagem. Por exemplo, a ideia da Suzana praticar caratê foi minha. No roteiro, quem fazia isso era o Gil. Mas conversando com ele, decidimos mudar. E o diretor adorou a sugestão. Afinal, a Suzana é uma mulher surpreendente.
“Como foi lidar com a sexualidade do personagem?”
Essa era a minha maior preocupação e o mais difícil de tudo. Eu sou transexual, a Suzana é transexual, e tinha muito
medo que me confundissem com a personagem. Mas o que me tranquilizou é que a história do filme é muito humana, sem estereótipos. O que ela vive, a paixão por esse colega de trabalho e o dilema que enfrenta de se abrir para ele ou não é algo muito pessoal, mas não chega a ser um problema. A cena em que ela revela seu segredo para o Gil foi muito complicada, levou um dia inteiro para ser feita. Foi preciso todo este tempo para chegarmos até um modo simples de contar algo tão difícil. No papel ela era muito maior, e na tela ficou até curta, mas é objetiva. E com delicadeza. Meu medo era não conseguir manter o equilíbrio entre a fragilidade e a força que ela possui.
“E não seria melhor levar naturalmente a condição sexual da personagem? Qual o sentido dessa revelação acontecer?”
Pois então, essa também era uma dúvida do Gustavo Machado. Ele questionava do porquê dela ter que revelar a condição dela para ele. Até porque os dois já haviam transado, e ele não percebera nada. Eu não sou a Suzana, mas tento descobrir as razões dela. Quando a gente gosta, é preciso ser verdadeiro. Afinal, isso é o que ela é também. E ela queria se entregar por inteira. Precisava saber se ele a amava do jeito que ela é de verdade, e não só parte dela.
“Como você vê o modo como a sexualidade é tratada no filme?”
No filme há todos os tipos de pessoas: heteros, gays, lésbicas, transexuais, prostitutas… e isso faz parte da vida! E a sexualidade em cena é muito próxima da realidade, não concorda? O que vemos é o que se vê nas ruas. A visão é muito fiel. As fronteiras do sexo estão caindo, e “Quanto Dura o Amor?” mostra isso muito bem. Existem pessoas e pessoas, somos todos diferentes, mas também muito iguais. Solidão, carência, liberdade, variedade de opções… os sentimentos são comuns. O que eu acho é que, nos grandes centros, nas cidades maiores, falta maturidade às pessoas, e por isso que tudo acaba sendo complicado. E é sobre isso que nossa história discorre.
“No teu blog (ogostodarosa.blogspot.com), de cara tu já afirma: ‘não gosto que me façam muitas perguntas. Falo o que eu tiver vontade’. Como é lidar com o assédio da imprensa?”
A exposição pública me preocupa, não quero falar da minha vida pessoal. Gosto, claro, de falar dos meus projetos, mas tudo dentro de alguns limites. Quero ter domínio sobre o que falam a meu respeito. Sei que é difícil, mas eu tento. E eu falo o que quiser. Essa frase, quando a coloquei, sabia que poderia ser mal interpretada, tive minhas dúvidas. Cheguei até a me aconselhar com uma assessora de imprensa, que me disse que na verdade uma declaração como essa seria instigante e desafiadora. E resultou verdadeira, também. Acontece é que não quero ser rotulada. Não sou militante, não levanto bandeiras. Meu papel social não é como transexual, como ativista. Sou uma atriz. E é assim que quero ser vista e percebida. E ponto final.
“Ter ganho o prêmio de Melhor Atriz em Paulínia foi uma grande surpresa?”
Nossa, com certeza. Foi uma conquista muito importante, ainda mais sendo com o meu primeiro trabalho! E com um papel polêmico, difícil, desafiador e que ao mesmo tempo me deixou muito feliz. Tinha muito receio sobre como iriam me receber, público e crítica. Que julgassem que eu só fosse capaz de fazer um tipo de composição. Então ganhar esse prêmio, ainda mais junto com a Silvia Lourenço, que é alguém que admiro muito, foi emocionante. O prêmio foi como uma mensagem de “bem vinda ao mundo do cinema”. É um estímulo para continuar.
“Pra terminarmos, quem tem medo de Maria Clara Spinelli?”
Depois do filme eu virei curiosidade pública. Aí acabei fazendo referência com o clássico “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”, com a Elizabeth Taylor, e adaptei meu blog para “Quem tem medo de Maria Clara Spinelli?”! Acho que as mulheres poderosas assustam. E não é uma questão de dinheiro, e sim de atitude. E ali, no blog, sou eu mesma, com tudo que penso, digo e apóio. Outros filmes que me influenciaram diretamente são “A Malvada” e “Tudo Sobre Minha Mãe”, do Almodóvar, que é na verdade uma brincadeira com o outro, o “All About Eve”. Ou seja, no blog está ‘all about me’. Tudo sobre mim.
(crédito das imagens: Alexandre Ermel)
Robledo Milani graduado em Comunicação Social pela UFRGS (www.ufrgs.br), já atuou como Publicitário e como Jornalista. Crítico de cinema, membro da ACCIRS, publicou artigos em revistas como Junior (www.revistajunior.com.br) e Aplauso, além de ter atuado também como produtor de televisão e comentarista de rádio. Escreve por prazer, não por obrigação.
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