Quando Mika surgiu, deu uma sacudida na parada das músicas mais tocadas e dos singles mais vendidos do Reino Unido. Ele era diferente e refrescante. Em janeiro de 2007, emplacou ‘Grace Kelly’ no topo das mais pedidas e, de lambuja, colocou o ótimo álbum de estreia “Life in Cartoon Motion” no primeiro lugar da Inglaterra.

Daí a ele se tornar a grande promessa para aquele ano não foram dois passos. Choveram comparações que iam de Freddy Mercury a Prince, passando por Elton John e pelo muito icônico David Bowie. Até prêmio de revelação da principal premiação da música pop do Reino Unido, o Brit Awards, ele levou. Só que a expectativa, por assim dizer, não vingou. Pelo menos não como se esperava.

A verdade é que de novo o líbano-americano criado em Londres não tinha nada. Há pelo menos quatro anos ele tentava algum sucesso de público. Do álbum de estreia, a excelente ‘Relax, Take it Easy’ foi a primeira tentativa de um hit. A música, porém, fez um desempenho muito tímido nas paradas britânicas, figurando apenas na posição de número 18. Logo depois, numa história semelhante a que trouxe o recente sucesso do também britânico La Roux, a Universal Records encontrou nosso garoto e relançou o álbum. Dessa vez, com ‘Grace Kelly’ como carro-chefe. Aí começaram o sucesso e aquelas comparações oitentistas cheias de glam e glitter.

Só que elas, no entanto, fazem bem mais sentido com “The Boy Who Knew Too Much”, segundo trabalho de estúdio do moço, do que com o anterior. O sucesso do primeiro CD se dá justamente porque, embora o remontemos à atmosfera ‘Freddy Mercury meets David Bowie’, a comparação acaba por aí. Ela morre na praia, graças a deus. O “Life…” é, antes de qualquer outra coisa, um trabalho autoral, com uma marca de um artista que estava se divertindo ao recriar uma sonoridade que há muito não se ouvia. Ele é um trabalho sem medo, quase que pretensiosamente despretensioso. Cheio de referências, como não podia deixar de ser, mas essencialmente refrescante. E com letras brilhantes e inteligentes, como as de ‘Billy Brown’ e ‘Stuck in the middle’, só para citar duas.

Em “The Boy…”, a coisa fica um pouco diferente. A sonoridade não é nova. O momento já não é mais tão favorável, levando-se em conta uma cena britânica que está, a cada semana, mais dinâmica e mutável do que costumava ser. Aí aquela comparação se torna inevitável e, de certo modo, não benéfica. Das letras menos trabalhadas verbalmente e arranjos mais pomposos às cores exuberantes dos videoclipes, tudo ali remonta mais a esse espectro dos anos 80. O álbum, então, se esvai de personalidade no uso de uma superprodução que aparenta uma tentativa de contornar alguma possível crise de criatividade.

“Life in Cartoon Motion”, apesar das comparações, possui uma marca original do artista mais evidente do que o segundo CD. Nele, Mika parece muito mais preocupado em mostrar quem é para o público, com todas as influências e perspectivas pessoais, do que em tentar impor um estilo. E quando se faz isso baseando-se fortemente em algo que já foi feito, a coisa fica estranha.

O que acontece com “The Boy Who Knew Too Much” parece justamente o contrário. Aqui, o artista deixa de lado a criatividade motora do primeiro trabalho e abre espaço para a necessidade de impor uma maneira de fazer música. A qualidade da produção do segundo álbum é impecável. A construção de cada música como parte de uma obra maior é muito mais pensada aqui do que o que se pode ouvir em “Life in Cartoon Motion”, por exemplo. Mas a questão extrapola este ponto.

Em “The Boy Who Knew Too Much”, o artista soube demais como fazer um álbum muito bem construído, sem furos e redondo. O espaço para sonoridades novas e experimentações não usuais, entretanto, foi sufocado pelo excesso da técnica. Que o segundo álbum é um trabalho formidável, disso não há dúvida. Que o segundo álbum é um produto que combina bom gosto e ponderação musical, isso se pode perceber ao escutá-lo com atenção. Mas talvez o esforço do menino Mika em se tornar um artista sólido tenha minado sua criatividade. O que ouvimos no novo trabalho é excelente, mas que, nem de longe, se compara ao ‘amadorismo’ gostoso, refrescante e necessário à criatividade que “Life in Cartoon Motion” apresentou ao mundo. Se antes Mika lançou a promessa para o mundo da música, Agora ele a matou pela ironia do desejo de se tornar um bom artista.