Comédia romântica é tudo igual. É só prestar atenção no esquema básico: os dois atores que aparecem no cartaz se encontram no começo do filme, decidem ficar juntos, mas logo um obstáculo surge separando-os, para em seguida ser superado e dar lugar ao aguardado final feliz. Mas de vez em quando essa equação é alterada em algum ou outro fator. E em “De Repente, Califórnia”, a diferença é anunciada de imediato: o casal protagonista é formado por dois homens. Se alguém, no mundo em que vivemos, ainda se choca com isso, então é melhor rever seus conceitos. Porque esta situação, cada vez mais comum, é apenas um reflexo da maturidade da nossa sociedade. E se é tão comum, qual o problema de vê-la refletida também nas artes? E o cinema, até por sua imensa popularidade, é um excelente meio para expô-la sem censuras e com bastante naturalidade. Exatamente como aqui é feito. Ponto para a produção!
Zach (o novato Trevor Wright, em performance nada afetada e muito realista) é um rapaz em crise. Ele vive com o pai bêbado, a irmã mais velha e com o filho desta, que é mais criado por ele próprio do que por ela. Trabalhando como cozinheiro numa lanchonete, tem como sonho cursar a faculdade e se tornar um artista plástico, devido a sua afinidade com o desenho. Mas e seus compromissos com aquela família que conta com ele como único pilar realmente estruturado entre eles? As coisas começam a mudar quando conhece Shaun (Brad Rowe, de “O Beijo Hollywoodiano de Billy”), irmão mais velho do seu melhor amigo. Um sentimento novo surge, algo que até então desconhecia. E aos poucos os dois vão se aproximando, até que acontece o primeiro beijo.
A partir do momento em que fica claro que há atração entre eles, tudo o que se pode esperar de uma situação dessas se sucede. Negação, afastamento, confronto, enfrentamento, aceitação. Zach, um adolescente que teve que amadurecer com muita velocidade, tem outro desafio pela frente – se aceitar exatamente como é. Mas a sorte dele é que para isso terá ao seu lado uma pessoa mais experiente, vivida e compreensiva, disposta a ajudá-lo, mostrando que o verdadeiro amor é mais do que sexo e curtição. E todas as dificuldades anteriores, que eram vividas apenas por um, agora passam a ser dos dois. Um time apaixonado e entregue um no outro. E é justamente nesta compreensão de tão confusos e estranhos sentimentos, que surgem sem pedir licença ou permissão, que “De Repente, Califórnia” se destaca, confirmando-se como uma história não apenas direcionada a um grupo específico, mas a qualquer espectador mais sensível.
“De Repente, Califórnia” foi escrito e dirigido por Jonah Markowitz, em sua estreia como realizador. Antes disso havia trabalhado no departamento de arte de filmes tão diferentes quanto “Casa de Areia e Névoa” (2003), “Jogos Mortais” (2004), “Entrando Numa Fria Maior Ainda” (2004), “De Repente é Amor” (2005), “Alpha Dog” (2006) e “Rocky Balboa” (2006). Esta variada experiência se reflete no cuidado em detalhes deste seu primeiro longa-metragem, seja pela bela fotografia, pelos cenários primorosamente escolhidos e pela boa ambientação dos personagens. Mas há mais, e esta trama simples e aparentemente banal só enriquece pela sinceridade dos sentimentos abordados e pelas soluções que, apesar de convencionais, ainda conseguem emocionar.
Se este é o tipo de filme que um público maior ainda tem que descobrir, a crítica especializada já deu o seu aval. “De Repente, Califórnia” foi premiado em diversos festivais de cinema com temática gay & lésbica, com destaque para o L.A. Outfest, o GLAAD Media Awards, em Dallas, Tampa, Seattle e na Filadélfia, entre outros lugares. Uma bonita e comovente história de amor, que foge dos chavões mais óbvios com elegância e discrição, sem nunca se assustar com as bandeiras que defende. Um enredo universal, que felizmente aqui é abordado com delicadeza, inteligência e bom humor.
Shelter, EUA, 2007
De Jonah Markowitz
Com Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth, Katie Walder, Matt Bushnell, Ross Thomas
www.heretv.com/sheltermovie/
(nota 7,5)