Que a situação esteja perto da esperada como ideal, ainda é muito cedo para dizer. Agora, que avanços importantes têm sido tomados no sentido de inserir personagens homossexuais num ambiente normal do cotidiano das séries de TV, isso parece estar se tornando uma realidade. Os seriados americanos têm aprendido a lidar pacificamente com a questão, o que, na verdade, é um reflexo da aceitação do próprio público conservador da América.

A situação mais próxima que me vem à mente aconteceu no recente sucesso da Fox, “Glee”. A comédia musical, que conta a história de um conjunto de estudantes desajustados do high school, vem rendendo bons índices de audiência ao canal e boas críticas da imprensa especializada, configurando-se como um dos grandes must-sees da atual temporada de seriados de TV.

A gente fala aqui da turma dos loosers, assim como mostram os cartazes de divulgação da série. A menina que não chama atenção pelos poucos atributos de beleza, o menino de cadeiras de roda, a garota gordinha, negra e sem amigos e o mocinho gay encontram na música a forma de se mostrarem relevantes dentro do colégio. É justamente numa das performances do ‘Glee Club’, o grupo de canto, que me ocorreu um pensamento. Durante a execução de ‘Bust Your Windows’ pela personagem Mercedes (veja vídeo abaixo), interpretada pela atriz Amber Riley, uma única frase da música sofreu alteração. Na versão original, a cantora Jazmine Sullivan canta ‘I bust the windows out your car after I saw you laying next to her’ (Eu quebrei as janelas do seu carro depois que te vi deitado com ela). Na versão gravada para o seriado, Mercedes canta ‘I bust the windows out your car after I saw you looking right at her’ (Eu quebrei as janelas do seu carro depois que te vi olhando para ela).

Parece besteira, mas não é. A mudança torna-se relevante se considerado o tema da série, que se passa dentro de um colégio, e o público para o qual ela é destinada. Para a audiência conservadora americana, seria ofensivo ouvir pré-adolescentes cantando ‘…depois que te vi deitado com ela’. Embora todos saibamos que é justamente no início da adolescência que esses fatos acontecem, a TV ainda tem suas barreiras. O interessante desta questão é entender que mudanças foram feitas em nome desse tal ‘bom senso’, afinal crianças estão assistindo e tudo mais. No entanto, existe um personagem assumidamente gay em “Glee”, o Kurt, vivido pelo ator Chris Colfer.

Kurt enfrenta seriíssimos problemas dentro do colégio, principalmente com o grupo dos meninos do futebol. Por conta disso, qualquer um que se aproxima do garoto vira motivo de chacota. Mas Kurt não está exatamente muito interessado no que os outros pensam dele. Ele responde à altura, tem o apoio dos poucos amigos na série e do público do lado de cá da TV e, numa atitude inusitada, coloca todo o time de futebol para dançar “Single Ladies (Put a Ring on it)”, da Beyoncé, no meio de um estádio lotado.

Quer dizer, dentro deste contexto, não parece ser mais um problema haver personagens gays. Aliás, é difícil citar hoje um seriado, mesmo os de canais abertos destinados à grande massa, que não possua um personagem homossexual. Há alguns anos, personagens assim eram impensáveis de serem representados em tramas para a televisão. Não tê-los, hoje, seria, por assim dizer, maquiar a realidade. Soaria leviano e um tanto falso, é verdade. E o Kurt, embalado pela Beyoncé, está aí para mostrar isso.