Um passeio pela Avenida Q

Em um primeiro momento, “Avenida Q” causa certo estranhamento por não saberem, os mais desinformados, ao certo sobre o que se trata. Quando vemos os bonecos então, remetemos ao antigo Vila Sésamo ou aos simpáticos Muppets. Pois esqueça tudo imediantamente! Os bonecos desse novo espetáculo fariam Garibaldo e Caco corarem com suas tiradas politicamente incorretas e, definitivamente, este não é um show para crianças.

“Avenida Q” é mais um musical da competentíssima dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho que aporta na cidade. Eu, particularmente, não sou um fã do gênero, e costumo achar a maioria das grandes produções do gênero datadas, piegas e um tanto arrastadas. Definitivamente, no entanto, não é o caso deste, que estreou no ano de 2004 na Broadway surpreendendo a todos e tornando-se o maior sucesso daquela temporada. Orçado em três milhões, a peça tem um único cenário, o de um prédio na decadente Avenida Q. Faz uso de recursos de vídeo, e os deliciosos e bem confeccionados bonecos são manipulados brilhantemente por todos os atores.

Esta é a história do jovem Princeton, que precisa encontrar um rumo em sua vida. Sua trajetória se cruza com a dos moradores dessa espelunca. Há o casal Brian e JapaNeusa, o zelador Gary Coleman, que fez sucesso na infância e foi esquecido quando cresceu, a doce Kate Mostra, que torna-se objeto de desejo do jovem Princeton, Rod, o gay enrustido, e seu amigo Nick. Além do monstro Trekkie, um viciado em pornografia digital, ainda circulam por lá a dançarina Lucy Devassa e os impagáveis Ursinhos do Mal, entre outros. O musical tem um viés totalmente politicamente incorreto. Eles falam de forma não muito “correta” de todas as minorias: gays, negros, judeus, desempregados, imigrantes… Os bonecos são usados para que essas barbaridades, que são ditas sem receios, pareçam mais suaves através deles. A presença deles em cena poderia ser uma armadilha se não fossem manipulados com a perfeição que são. Há momentos que parece que o ator está imitando o boneco, e todos os 16 personagens são iguais aos originais americanos.

O elenco é um dos grupos mais homogêneos e talentosos que se reuniu nos últimos tempos em musicais no país. Todos cantam, dançam, interpretam e ainda manipulam os bonecos com muito talento. André Dias e Sabrina Korgut, os mais exigidos, são de um talento ímpar. Ela, então, ao ter que às vezes fazer um dialogo entre duas personagens diferentes, dá show! Vocal e expressão corporal impecáveis! Claudia Netto e Renato Rabelo não manuseiam os bonecos, mas se destacam pela comicidade – principalmente ela, quando aparece nos trajes engraçadíssimos da deliciosa JapaNeusa! Os outros atores – Fred Silveira, Mauricio Xavier, Gustavo Klein e Renata Ricci – são igualmente talentosos e competentes (estes dois últimos fazem os deliciosos Ursinhos do Mal).

O conjunto técnico, como se poderia esperar de um espetáculo vindo da Broadway, encontra aqui profissionais à altura. Cenários, iluminação e, principalmente, figurinos de encher os olhos. A direção de Moeller é dinâmica, rica, conduz bem os atores e as canções e ainda mantêm o ritmo do espetáculo sempre lá em cima.

A versão original ganhou três prêmios Tony (o Oscar do teatro norte-americano), e aqui no Brasil recebeu cinco indicações ao Shell. “Avenida Q” é politicamente incorreto e toca como ninguém na ferida do preconceito que quase todos têm em relação a algo. Com músicas como “E se ele for gay” e “Todo mundo é meio racista”, as verdades são ditas de uma forma engraçada, mas direta. Esse espetáculo é um suspiro, uma renovação nesse meio dos musicais. Sai aquele cheiro de mofo e canções arrastadas e entra o dinamismo, o humor inteligente, a vivacidade e a cara de pau dessa deliciosa “Avenida Q”!

“Avenida Q”
Cotação: ***** (Excelente)

About Fábio Morales

Fábio Morales é formado em turismo e hotelaria. É, também, um simples apaixonado e viciado em teatro. Escrever sobre uma coisa que me faz tão feliz é um prazer. Welcome to my life!
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